Guerra das maquininhas desafia gigante do setor

Guerra das maquininhas desafia gigante do setor

Queda no lucro da líder Cielo e pulverização do mercado prenunciam dificuldades para as empresas de meios eletrônicos de pagamento manterem seus balanços bilionários

postado em 30/01/2019 00:00
 (foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)


; Jaqueline Mendes

São Paulo ; O semblante do executivo Paulo Caffarelli, que desde outubro é presidente da maior empresa de meios de pagamento do país, a Cielo, não esconde que há enormes desafios para o mercado de cartões de crédito. Sempre sorridente, o ex-presidente do Banco do Brasil demonstrou preocupação nesta semana, durante encontro com jornalistas para divulgação de resultados, em São Paulo.

Caffarelli afirmou que o lucro da companhia, depois de dois anos consecutivos de retração, só deve voltar a crescer em 2020. O ambiente de dificuldades e de incertezas contrasta com o clima de lua de mel que a empresa viveu durante quase dez anos, sem ser incomodada pelos concorrentes e ocupando as primeiras colocações no ranking das companhias com melhor desempenho na bolsa, o que era resultado de balanços financeiros consistentes.

Neste ano, no entanto, a empresa não deve alcançar o guidance (termo em inglês que define a projeção de resultado feita com grande antecipação por uma empresa) de R$ 2,3 bilhões a R$ 2,6 bilhões. ;Vamos perseguir esses números, mas será um grande desafio para nós;, afirmou Caffarelli, sem apresentar nenhuma nova projeção.

A liderança de mercado da Cielo tem gerado dois efeitos diretos na empresa. O primeiro, e mais negativo, é a perda de espaço. A Cielo responde, atualmente, por 45% do mercado brasileiro, fatia ainda substancial, mas que vem encolhendo com o passar do tempo. Há um ano, o percentual era de 50%.

;Quem tem mais para perder sempre está mais exposto às perdas de participação;, disse Filipe Martins, consultor da corretora Coin. ;Os desafios das Cielo estão no fato de que o mercado de meios eletrônicos de pagamento está em plena transformação, com as mudanças de regras do Banco Central e com a maior participação das fintechs;, afirmou o especialista.

O segundo efeito, neste caso visto como positivo em um ambiente de forte concorrência, é que a empresa tem mais poder de fogo, especialmente entre microempreendedores individuais e pequenas e médias empresas (PMEs), segmentos de forte crescimento no país, apesar da crise dos últimos anos. ;Se nós estivéssemos acomodados, poderíamos perder participação de mercado, mas estamos trabalhando pesado para defender nosso patamar e até elevá-lo, se possível;, garantiu Caffarelli.

De acordo com o executivo, mesmo que a Cielo encolha nos próximos meses, com uma ligeira deterioração dos resultados da companhia e achatamento das margens operacionais no curto prazo, a estratégia é reverter as perdas.

Estratégia


A empresa, na avaliação do executivo, tem condições de se manter na liderança no mercado de adquirência, mesmo com o acirramento da concorrência com o surgimento das fintechs e com o avanço da principal rival, a PagSeguro, do UOL. A tática para defender sua participação, no entanto, deve comprometer a rentabilidade. ;Entre margem e market share, estamos optando por market share neste momento;, garantiu Caffarelli.

Para isso, a Cielo reduziu seus custos, o que permitiu oferecer produtos e serviços mais competitivos. Além disso, a empresa recrutou mais de mil novos funcionários, permitindo uma ampliação de credenciamento de lojistas em 2,5 vezes. ;Quebramos o dogma de venda da máquina. A Stelo é nossa marca de combate;, destacou o presidente da Cielo.



Para Caffarelli, a atual situação de caixa da empresa é ;confortável;, o que pode dar à companhia mais munição para lançar produtos e serviços, além de possibilitar oportunidades de aquisições. ;Atualmente, não precisamos comprar nada para o nosso dia a dia, mas algumas aquisições, principalmente para transformação digital, podem fazer sentido;, acrescentou.

A situação da Cielo é emblemática, porque marca o início de uma transformação no setor de maquininhas e meios eletrônicos de pagamento. Nos últimos dois anos, com ou sem crise, o total de transações cresceu a taxas de dois dígitos.

Com o dinheiro de plástico, as operadoras e os bancos, especialmente os grandes, que respondem por cerca de 90% do total de cartões de crédito e débito emitidos no Brasil, garantiram a antecipação dos recebíveis da venda e a concessão de empréstimos, com taxas que podem chegar a 150% ao ano, considerando-se os juros e as tarifas fixas por transação. Com a chegada das fintechs, que possuem custos infinitamente menores, tudo mudou. Aparentemente, em definitivo.

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