Cordas com toque feminino

Cordas com toque feminino

Show celebra dia internacional da mulher com primeiro encontro de violeiras em Brasília

» Diego Marques*
postado em 06/03/2019 00:00
 (foto: Bento Viana/Divulgação)
(foto: Bento Viana/Divulgação)

Houve um período em que o cenário da viola caipira era dominado quase que exclusivamente por homens. Quando uma mulher se interessava pelo instrumento, era comum ser prontamente cooptada por algum homem que podia ser ora da família, ora do círculo de amizades. No entanto, graças à resistência de nomes icônicos como Inezita Barroso, o contexto se modificou. Hoje, elas ainda são minoria, mas para buscar igualdade e garantir o espaço feminino para futuras gerações, as violeiras têm se organizado para fortalecer a presença feminina dentro da música caipira.

Com essa intenção surgiu o projeto do show Viola em canto de mulher, que ocorre na próxima sexta-feira no Teatro dos Bancários. O evento aproveita o dia internacional da mulher para realizar o primeiro encontro de violeiras em Brasília. Artistas da capital federal e de outros estados dividem o palco, que recebe seis atrações, todas femininas, para mostrar a diversidade e a habilidade feminina com os instrumentos de dez cordas.

Entre elas, Juliana Andrade vem direto de São José do Rio Preto (SP). Referência para muitas violeiras, ela tem 25 anos de carreira, mas conta que nem sempre foi fácil e, no início, enfrentou resistência do próprio pai. ;Ele sempre tocou desde moço e queria que meus dois irmãos aprendessem para poder acompanhá-lo. Mas eles não levavam muito jeito, aí eu pegava a viola escondida para aprender. Minha mãe comentou que eu estava tocando e ele disse ;imagina, se nem os irmãos homens conseguem, ela não vai conseguir;. Mas eu aprendi e se tornou a minha paixão;, conta.

;As pessoas da minha geração enfrentavam desconfiança. ;Será que toca mesmo? Viola é coisa de homem;. Ouvi demais isso. Eu não sofri muito preconceito, essas barreiras foram quebradas por Inezita Barroso e Helena Meirelles, pioneiras na viola caipira, mas as pessoas sempre duvidam da nossa capacidade;, lamenta Juliana.

Cláudia Morais integra o grupo Viola Flor, de Uberaba (MG), e também subirá ao palco nesta sexta-feira. A história dela tem muitas semelhanças com a de Juliana Andrade. ;Eu já estou na música há 40 anos e no meio musical existe resistência à mulher. Costumo dizer que, para ser aceita, ela tem que fazer igual ao homem e um pouco mais. A gente precisa continuar o trabalho para abrir o mercado para novas mulheres. Eu toco no Viola Flor e só tem mais outro grupo totalmente feminino em todo o Brasil. É muito pouco;, desabafa.

;Acho que, ao tocar em vários lugares, o Viola Flor acaba incentivando outras mulheres, até porque a gente trabalha com repertório autoral;, confessa Cláudia. E é exatamente para continuar motivando a prática da viola entre as mulheres que a musicista Karen Parreira decidiu produzir o Viola em canto de mulher. ;O movimento feminino tem crescido bastante, não tem mais tanta resistência. Eu sou produtora, faço shows, toco e é responsabilidade nossa manter a presença feminina no cenário;, afirma.

Outra artista a se apresentar no evento é Carol Carneiro. Com 20 anos de carreira, ela teve mais sorte que as demais durante o caminho na música. ;Eu sei que existe resistência contra a mulher, não só na música, mas em todos os setores da sociedade. Eu nunca sofri preconceito, nem duvidaram de mim. Pelo contrário, vejo demanda para a inserção. Toco forró e samba e vejo uma sede pela socialização da mulher no meio;, garante.

Porém, Carol entende que ela foi a exceção. ;Por isso esse evento é fundamental. São vários parceiros envolvidos. Mulheres de Brasília, mulheres de outros estados e um trabalho de produção que também envolve homens interessados no crescimento da presença feminina. Quero que aconteça outras vezes para ver mais mulheres tocando o instrumento e ocupando esses espaços. Só tem a crescer, a gente tem que continuar para ficar cada vez mais à vontade. Me sinto privilegiada por participar;, se orgulha.

São justamente iniciativas como essa que encorajam crianças a se aventurarem no aprendizado de um novo instrumento. Gabi Viola, por exemplo, tem apenas 12 anos e também tocará no Viola em canto de mulher. Ela, como as demais, deu os primeiros passos no violão aos seis anos, antes de se apaixonar pela viola caipira, da qual se aproximou há quatro. ;Eu tocava na igreja e, então, comecei a participar do grupo Amigos da Viola, em São Sebastião. Me sinto muito feliz e honrada por ter sido convidada a participar desse show. Espero que dê tudo certo, que eu faça uma boa apresentação e que o público goste;, diz.

Gabi, inclusive, incentiva outras meninas a conhecerem a viola caipira. ;Eu diria para as meninas não desistirem dos seus sonhos porque, quando você acredita, eles podem se tornar realidade;, ensina.

* Estagiário sob supervisão de Nahima Maciel

Tempo de aprender

Para quem quiser se aventurar, Núcleo de Ensinamento da Viola facilita o caminho. A ideia surgiu em 2013 e foi idealizada pelo curador Volmi Batista. O projeto é gratuito, tem duração de seis meses e oferece interação com o universo lúdico e criativo da viola caipira para crianças entre 12 e 16 anos. Em parceria com a Secretaria de Educação do DF, o projeto atuará em Ceilândia, no CAUB I, em Candangolândia e em Planaltina.

;Conseguimos quatro escolas e a ideia é, mais tarde, deixar o projeto seguindo. A intenção é que cresça e entre no calendário da viola. Por meio da música, a criança socializa, principalmente quando se toca em grupo. O tempo é curto, são apenas seis meses, mas dá para fazer um bom trabalho. Vamos levar uma viola mais lúdica para as escolas para despertar o interesse das crianças de uma forma mais divertida;, explica Bete Silva, secretária-executiva do Clube do Violeiro Caipira de Brasília.

A equipe do projeto tem profissionais de diversas áreas, como história, comunicação, gestores culturais e professores de música. Os participantes vão receber apostilas didáticas em três módulos e uniforme. Além disso, 80 violas serão distribuídas nos locais das aulas.

Não há avaliação e o objetivo é fomentar a prática da viola caipira entre as crianças. Ao fim do curso, os alunos se apresentam em forma de orquestra de viola. Somente aqueles que estiverem na apresentação vão receber o certificado de conclusão de curso. A organização também prevê condecorações para alunos que demonstrarem maior desempenho e interesse, como assiduidade e habilidade inata.

Viola em Canto de Mulher
Teatro dos

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