Chuva salga os preços

Chuva salga os preços

Com o alto volume de precipitações do último mês, a produção de alimentos, como tomate, alface e batata, ficou prejudicada. Com isso, o valor final para o consumidor fica bastante elevado

» MARIANA MACHADO Especial para o Correio
postado em 06/05/2019 00:00
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

;O tomate está muito caro; é a frase mais repetida pelos corredores das Centrais de Abastecimento do Distrito Federal (Ceasa). Do produtor ao consumidor, todos estão sentindo o peso de comprar um dos ingredientes mais básicos na dieta brasileira. O aumento, de fato, aconteceu. Quem, em março, desembolsava em média R$ 30 nas caixas de 20kg, hoje chega a gastar R$ 120.

É o caso da funcionária pública Ilda Guedes, de 68 anos. Por gostar de ter a família por perto para as mais variadas refeições em casa, ela precisa manter a geladeira sempre cheia. Por isso, a cada 15 dias, vai ao Ceasa em busca dos melhores legumes e frutas. ;Aqui, sai muito mais em conta do que no mercado. Lá, por exemplo, minha amiga comprou a unidade do melão por R$ 23. Aqui, eu achei a caixa com sete por R$ 50;, elogia. Na sacola de compras dela, gengibre e outros vegetais. ;Mas o preço do tomate está absurdo. Há um mês achei a caixa por R$ 30. Agora, paguei R$ 100;, diz.


Assim como ela, o empresário Racine Coelho, 50, também estava insatisfeito. Dono de uma cozinha industrial, que fornece alimentação a empresas, ele reclama do aumento. ;O jeito é buscar alternativas. A gente tenta fazer saladas com mais folhagens, procura substituir, mas nem sempre é possível;, afirma. ;Normalmente, gasto por mês de R$ 6 mil a R$ 7 mil com os ingredientes. Em abril, esse custo subiu pelo menos 50%;, calcula.

Mas o tomate não é o único vilão. Batata-inglesa, feijão-carioquinha, cenoura e pimentão-verde também estão mais caros. ;Normalmente, pago R$ 80 no saco de batata. Agora, preciso desembolsar R$ 160;, diz Racine. A última pesquisa do valor da cesta básica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostrou que, em março, Brasília foi a capital brasileira com alta mais expressiva no preço (11,09%). Aqui, o valor médio fica em R$ 474,94, o quinto maior do país.


Entre os meses de março de 2018 e de 2019, a capital federal ficou em terceiro lugar entre os líderes na variação de preço, com aumento de 17,39%, atrás de Goiânia (20,25%) e de Salvador (18,42%). A batata teve alta de 79,11% no DF, maior valor no país, assim como do feijão-carioquinha, que subiu 102,13%. De acordo com os economistas, os principais influenciadores da variação de preços são as condições climáticas, inflação, sazonalidade dos produtos e aumento dos combustíveis. O professor de finanças públicas da Universidade de Brasília, Roberto Bocaccio Piscitelli, explica que, como a demanda cidade é grande para a oferta produzida e muitos itens dependem de importação, quando o preço da gasolina sobe, isso reflete no prato.

Mas o volume de chuvas é o fator preponderante. ;Nos últimos meses, houve um aumento, até certo ponto inesperado, dos preços e a questão dos alimentos é, particularmente, mais sensível, porque afeta principalmente as famílias de baixa renda e chega a representar 20% do orçamento doméstico;, avalia o professor. ;O que a gente usava como média há alguns anos, hoje talvez não seja parâmetro para prever volumes de chuva. No Centro-Oeste é surpreendente o prolongamento e a intensidade desses fenômenos meteorológicos.;

A sugestão do economista é atenção e pesquisa. ;Não é preciso comprar sempre aquilo de que a gente mais gosta. Às vezes, é necessário substituir ou suprimir certos produtos, dando preferência a itens da estação. É importante estar vigilante e alterar a dieta dentro das possibilidades;, acredita.

Prejuízos
Entre os agricultores, a concordância é geral: as chuvas prejudicaram as plantações. Sérgio Bispo, 50 anos, é produtor rural em Brazlândia. Ele está no ramo desde criança, seguindo o negócio do pai. Na propriedade, ele planta tomate, mexerica, pimentão, repolho, vagem e chuchu. Ele calcula que, devido às condições climáticas dos últimos meses, tenha R$ 60 mil de prejuízo. ;Tomate e pimentão foram os mais afetados. Estou usando as outras culturas para compensar o que perdi dessas;, diz.

Ele explica que, se as chuvas tivessem sido mais amenas, as consequências não seriam tão ruins. ;Elas (as chuvas) estão estragando as lavouras. O produtor hoje está gastando mais para tentar recuperar do que para produzir, e o cliente se assusta com o preço e com a qualidade, porque, com tanta água, o tomate tem menor durabilidade;, diz Sérgio, que calcula que o custo de produção tenha triplicado nos últimos meses.

As folhagens também são afetadas. Paulo Takemori, 45 anos, planta alface, repolho e outras hortaliças na região de Vargem Bonita. Ele conta que praticamente metade do que plantou se perdeu por causa das precipitações. ;Fiquei quase dois meses sem conseguir colher alface-americana. Há um mês, quem viesse ao Ceasa não achava dela. Como a produção fica menor, não tem jeito, é preciso abater no preço final;.

Atualmente, ele consegue vender a caixa com 12 pés a R$ 25, mas, nas semanas em que a colheita não é boa, o preço chega a dobrar. ;No período da seca, nós conseguimos colher 100% do que plantamos, entretanto, é frio e as pessoas comem menos salada. Vida de produtor não é fácil, temos sempre que encontrar um equilíbrio e dependemos do clima;, avalia.

Nos cálculos do agricultor e secretário da Associação de Produtores Rurais do Incra 9, Robson Pereira da Silva, 48 anos, pelos próximos 90 dias, é provável que os preços de algumas mercadorias, como o tomate, continuem altos. ;Aqueles que têm ciclo de 90 dias, a exemplo da cenoura, devem continuar caros. Para se produzir, é necessário esse tempo para plantar. Como tivemos grandes chuvas, houve um espaço de pelo menos duas semanas em que a gente não conseguia colocar o trator no campo para semear;, avalia.

Enquanto os temporais atrapalham o desenvolvimento de alguns alimentos, outros encontram as condições ideais e são colhidos em abundância. É o caso da mexerica e da batata-doce, ambas cultivadas por Robson. ;Este ano foi muito bom para quem sabe produzir. É preciso tecnologia e inteligência. Agora, enquanto a batatinha de mesa (inglesa) está bem mais cara, a batata-doce, você encontra aos montes;, explica.



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A pesquisa mais recente do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística (IBGE) mostra que a prévia da inflação para abril tem a maior taxa desde a g

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