Sobre a Caxemira

Sobre a Caxemira

Rodrigo Craveiro rodrigocraveiro.df@dabr.com.br
postado em 21/08/2019 00:00
Imagine cerca de 14 milhões de pessoas com todos os direitos negados, inclusive a própria cidadania. É como pensar que quase sete vezes a população do Plano Piloto está praticamente privada da própria existência. Ou quase cinco vezes a do Distrito Federal. Adolescentes são sequestrados pelas forças de segurança indianas e espancados, mulheres acabam vulneráveis ao estupro, doentes não têm acesso aos medicamentos, líderes políticos terminam presos, trabalhadores estão impedidos de se deslocar a outras localidades para a lida diária. O toque de recolher e a censura absoluta tornam tudo ainda mais difícil.

A vida na parte indiana da Caxemira, zona fronteiriça entre Paquistão e Índia, está em suspensão desde a decisão de Nova Délhi de abolir o artigo 370 da própria Constituição e pôr fim ao status especial que conferia autonomia à região, a qual vigorava havia 72 anos, com o fim da colonização britânica. A decisão política e a invasão militar à Caxemira indiana elevaram a tensão e ressuscitaram o fantasma de uma guerra. Algo que o Paquistão reitera não desejar, ante os riscos de uma mortandade. Tanto a Índia quanto o Paquistão, inimigos históricos, detêm armas nucleares. O uso de um artefato atômico empurraria o planeta para uma Terceira Guerra Mundial. O temor é o de que a China, aliada histórica dos paquistaneses e detentora de uma porção da Caxemira, não assista à escalada bélica de camarote.

O sul da Ásia tem muitos problemas com que se preocupar. A Linha Durand, fronteira porosa entre Paquistão e Afeganistão, serve de passagem para militantes do Talibã e do Estado Islâmico ao longo de seus 2.430km de extensão. A lei das armas impera ali, uma herança da ocupação soviética (1979-1989). Uma guerra aberta entre indianos e paquistaneses pode impulsionar ainda mais a presença de terroristas na região e colocar em xeque governos locais. A volta do extremismo ao poder, nos moldes do Talibã, é algo que ninguém deseja. A comunidade internacional precisa exigir que a Índia reconsidere a abolição do artigo 370, retire suas tropas da Caxemira e respeite os direitos humanos. Moderação e cautela são palavras-chaves neste momento.

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