Empresas entram na era dos podcasts

Empresas entram na era dos podcasts

Aumento da velocidade da internet, popularização dos smartphones e programas de qualidade atraem grandes marcas para os streamings de áudio. No Brasil, mercado está em ascensão

» Jaqueline Mendes
postado em 22/08/2019 00:00
 (foto: Wikipedia)
(foto: Wikipedia)


São Paulo ; A internet não para de produzir novidades. Depois da explosão do streaming de vídeo, uma nova onda chegou com força ao mercado brasileiro: os podcasts, como são chamados os streamings de áudio.

Segundo estudo recente realizado pela Associação Brasileira de Podcasters (Abpod) ; sim, há uma associação para promover o setor ; existem 2 mil podcasts ativos no país. Por ativos, a Abpod entende aqueles que são exibidos com regularidade (em geral, semanais) e que podem ser acessados por meio de diferentes plataformas.

O estudo, realizado em parceria com o Ibope Inteligência, concluiu que 40% dos 120 milhões de usuários da internet no Brasil já ouviram pelo menos uma vez um programa desse tipo. É um número espantoso, que corresponde a 48 milhões de pessoas ; mais do que toda a população da Argentina. Além de amplo, o público é qualificado. De acordo com o levantamento, ele é mais escolarizado e tem renda superior à média da população.

A pesquisa também mostrou que os ouvintes de podcasts preferem programas curtos, de até 15 minutos, e que os smartphones são de longe o meio escolhido para escutar os conteúdos, com 75% de predominância entre os usuários.

Como não poderia de deixar de ser, as empresas perceberam que os podcasts são interessantes para suas marcas. ;Os streamings de áudio se tornaram os queridinhos da vez;, diz o consultor Rodrigo Rossettti, especializado em tecnologia. ;A vida moderna favorece a proliferação dos podcasts. As pessoas passam horas no trânsito e aproveitam esse tempo para se informar.;

Rossetti também atribui ao avanço da tecnologia dos fones de ouvido (hoje em dia, os melhores produtos têm conexão wi-fi) o crescimento dos podcasts. Os programas, diz o especialista, são ouvidos enquanto as pessoas praticam exercícios, estão no horário do almoço ou em outros momentos de lazer.

De olho no crescente mercado, diversas empresas passaram a investir nesse tipo de conteúdo. A Natura criou recentemente uma minissérie em quatro capítulos, chamada Viva seu corpo, focada no universo feminino. O projeto foi realizado em parceria com o Mamilos, um dos podcasts mais populares do Brasil.

Criado pelas publicitárias Juliana Wallauer e Cris Bartis, o podcast Mamilos conta com público cativo de 170 mil ouvintes semanais ; um fenômeno de audiência. Para alguns episódios, as apresentadoras convidam especialistas de diferentes áreas, às vezes com visões divergentes sobre temas espinhosos (sexo, machismo, violência urbana, maternidade, assédio, desemprego), o que traz bastante pimenta para o programa. Alguns episódios são gravados em teatros lotados, com o público interagindo com os debatedores.

Os grandes bancos também estão atentos a esse mercado. O Bradesco é um dos patrocinadores do projeto Histórias de ninar para garotas rebeldes, podcast baseado no best-seller que conta a trajetória de 100 mulheres que realizaram feitos extraordinários. Maior banco do país, o Itaú Unibanco criou o Investcast, podcast dedicado aos seus acionistas e que funciona como uma imersão no mundo dos investimentos.

A área de economia, finanças e negócios conta com diversos programas. O Sebrae é responsável pela série Conhecer para empreender, criada em 2017, com dicas sobre empreendedorismo e sucesso nos investimentos.

O segmento de moda é outro bastante ativo no mundo dos podcasts. Marca de calçados femininos, a Anacapri criou o Beleza pra quem?, que tem como pano de fundo o autoconhecimento da mulher.

Estratégias

No Brasil, Spotify e Deezer são as principais plataformas de streaming de áudio. Nos Estados Unidos, a Apple Productions tem entre 50% e 70% de toda a audiência de podcasts no país, mas a disputa por mercado tende a se tornar mais acirrada. Em fevereiro, o Spotify desembolsou um valor estimado em US$ 230 milhões ; algo como R$ 920 milhões ; pela Gimlet, empresa especializada nesse formato.

Com o aumento da audiência, os podcasts se tornaram fundamentais nas estratégias de negócios das principais plataformas de streaming. Entre 2017 e 2018, segundo dados do próprio Spotify, o número médio de ouvintes de podcasts diários no mundo inteiro cresceu 330%. A empresa, porém, não revela dados relativos apenas ao mercado brasileiro.

O Ibope fornece algumas pistas sobre a força do segmento. De acordo com o estudo Podcast Ibope 2019, 32% dos internautas ativos no Spotify utilizam o canal para escutar podcasts. Há uma década, esse número não chegava a 5%.

Fundado por Daniel Ek em 2006 e com mais de 100 milhões de clientes, o Spotify operou durante muito tempo no vermelho. Em fevereiro passado, a empresa divulgou lucro nos meses de outubro, novembro e dezembro de 2018, o que comprova o fôlego renovado do setor.

A indústria de podcast já movimenta valores robustos. Em 2017, os anúncios publicitários nos Estados Unidos nos streamings de áudio movimentaram US$ 315 milhões. Em 2018, o montante chegou a US$ 479 milhões. Ainda não há informações referentes a 2019, mas estimativas dos especialistas apontam para um mercado que gire aproximadamente US$ 700 milhões.

Em termos financeiros, a China é o país que melhor soube aproveitar o potencial dos podcasts. No país da Muralha, o modelo funciona no sistema de assinaturas pagas. Em 2018, a indústria de podcast foi estimada em US$ 7,3 bilhões no país.



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