>> entrevista CID GOMES

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Senador pelo PDT e ex-governador do Ceará faz duras críticas ao governo Bolsonaro e ao PT, mas não identifica, um movimento capaz de unir os partidos de oposição. E prevê que o irmão Ciro Gomes será candidato à Presidência em 2022

Denise Rothenburg Leonardo Cavalcanti
postado em 01/09/2019 00:00
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

;Moro é um político, com pretensões e vaidades;

Aos 56 anos, depois de ser líder estudantil na década de 1980 e filiado a partidos ligados a lutas populares ao longo da carreira política, o senador Cid Gomes (PDT-CE) afirma ter vergonha de se dizer de esquerda. O culpado, segundo ele, é o Partido dos Trabalhadores. ;O PT acabou passando uma ideia para a população de que esquerda é o vale-tudo, pode meter a mão, pode fazer o que quiser sem o mínimo de moral e ética;, diz, para completar em seguida: ;A crença de alguns de que os fins justificam os meios virou sinônimo de corrupção e de desmando. Isso acabou ficando colado na esquerda;.

Na tarde da última quarta-feira, Cid recebeu a reportagem do Correio no gabinete, no 10; andar do Senado. Falou durante uma hora sobre o governo de Jair Bolsonaro, o difícil papel da oposição, o ministro Sérgio Moro e a candidatura do irmão Ciro Gomes. Sobre o chefe da Justiça, o senador foi impiedoso: ;Ele nunca me enganou, nunca foi juiz. É um político;. Sobre o ex-candidato à presidência nas eleições de 1998, 2002 e 2018, Cid afirma: ;Ele deverá será candidato novamente em 2022.; A seguir os principais trechos da entrevista:

Qual a dificuldade da oposição em fazer um contraponto ao governo Bolsonaro?

O governo Bolsonaro é um governo controverso, que acaba inspirando sentimentos controversos Brasil afora. O Brasil é um país de diferenças muito grandes na economia e na cultura. Isso, de alguma forma, dificulta a unidade. Mas o Bolsonaro, hoje, é reprovado. Nos municípios do Ceará, o índice de reprovação dele supera os 70%. O PDT tem um senador do Maranhão e um de Rondônia, e, se você for ver o nível de aprovação do presidente nesses dois estados, é diferente. Óbvio que isso faz com que você não tenha ainda um sentimento que una todos os partidos numa posição mais clara de oposição. Acho que é o que descreveria o comportamento do parlamento brasileiro em relação ao governo. A reforma da Previdência, que nós não apoiamos, foi aprovada na Câmara a despeito do governo, que só criou dificuldades. Há um sentimento de que é preciso colocar as coisas nos eixos.

Então, boa parte da oposição está ;dando um tempo;?
Boa parte está dando um tempo e boa parte do Brasil acha que só a negação, agora, já é um bom caminho. Bolsonaro faz tudo errado. Um presidente que queira se impor como autoridade legitimada, passada a campanha, não deveria ficar aprofundando dissensos e controvérsias. Ele deveria se esforçar para ser o presidente do conjunto da população brasileira.

Os aliados dele vêm dizendo que ele é assim mesmo e não vai mudar;

Lamento muito. Sou de oposição. Mas, oposição existe mais de uma, e isso é algo que procuramos demarcar. Nós, PDT, Rede, PSB, Cidadania, a gente quis claramente mostrar um comportamento de independência. Não diria que estão todos na oposição, mas muitos que depositavam alguma expectativa favorável ao governo Bolsonaro já estão se decepcionando. Mas queremos deixar claro que não somos a oposição que o PT faz. O PT tá diferente também.

Como assim, diferente?

Estou falando de bancadas, e elas não são uníssonas. No Senado, o papel pessoal acaba muitas vezes se sobrepondo às estratégias coletivas. O Jaques Wagner não tem aquele comportamento tradicional de ;quanto pior melhor;, até porque já foi governo e sabe como é que é isso. O Rogério Carvalho, senador por Sergipe, foi secretário e tem tido um comportamento diferente. Você vê pela fala deles que não estão no radicalismo da oposição por oposição.

Faltou uma leitura sofisticada na campanha de que existia uma força eleitoral do Bolsonaro?
Nenhum analista brasileiro considerou possível uma vitória de Bolsonaro até ele levar a facada. Até aquele dia eu não tinha ouvido um prognóstico ou preocupação de que ele viesse a ser presidente.

Mas, em maio, junho, do ano passado, já era possível ver que ele tinha 80% de votos consolidados...

Uma coisa era ele ir pro segundo turno e outra era ganhar. O segundo turno já estava claro por uma série de negações. Ele era o estuário das negações: cota racial, cuidados com o meio ambiente, ;xiitismos; exagerados. E ele ia recebendo tudo isso de graça, sem formular nada.

Faltou, então, uma leitura mais sofisticada?
Nada melhor do que avaliar o passado à luz de experiências. O que aconteceu na Argentina poderia ter acontecido no Brasil. Você tem uma força que é tradicional e polariza, tem um núcleo duro forte, mas tem uma rejeição majoritária. O que fazer numa hora dessas? Você procura um neutro para evitar o Bolsonaro, que não tivesse desgaste. Parece que eu estou fazendo campanha para o Ciro, mas era o óbvio. Tanto que ele acabou o terceiro colocado, era a alternativa.

O senhor tem mágoa do PT nessa história?
Tenho uma queixa que vou levar pro resto da vida, ou até que eu deixe de ter vergonha de dizer que sou de esquerda. Eu, hoje, tenho vergonha de dizer que sou de esquerda.

Por quê?
Porque o PT acabou passando para a população a ideia de que esquerda é o vale-tudo, pode meter a mão, pode fazer o que quiser sem o mínimo de moral e ética, numa crença de que, para alguns, os fins justificam os meios. E virou sinônimo de corrupção e de desmando, de irresponsabilidade, enfim, um conjunto de coisas que ficou colado na esquerda.

O senhor critica o PT, mas participou do governo e defendeu a permanência da Dilma...
Vou morrer dizendo que a Dilma era uma pessoa bem-intencionada, que não cometeu um crime que justificasse o impeachment. Mas teve um milhão de equívocos no governo. Isso, obviamente, trouxe um desgaste político, e os aproveitadores assumiram o poder. Tanto é que boa parte do PSDB se arrepende de ter apoiado o impeachment e dado chances para que boa parte do desgaste do PT tivesse uma releitura. Se tivessem deixado a Dilma até o fim, o PT estaria com um problema por muitos anos. Lá no Nordeste, o PT se recuperou a partir do momento que o Michel Temer foi pior do que a Dilma. As pessoas começaram a sentir saudade da Dilma e, principalmente, do Lula.

E as pessoas estão certas em sentir saudades do Lula?
Se você analisar o nível de consumo das pessoas, a renda média brasileira, é claro que era melhor no tempo do Lula do que é hoje. Isso quer dizer que o Lula é o ideal? Eu não considero, por isso, não estou no PT. O PT é um partido que tem um viés corporativo e sindical muito forte,

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