360 Graus

360 Graus

por Jane Godoy com Sophia Wainer janegodoy.df@dabr.com.br
postado em 26/12/2019 00:00
 (foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)


Brasília, a jovem senhora

Gostar de Brasília, na primeira visita, não é um fato comum.

Conheci Brasília em 1968. Era cadete do terceiro ano da Academia Militar das Agulhas Negras. Eu e mais 11 companheiros vim desfilar no 7 de setembro, a cavalo, com as Bandeiras Históricas do Brasil. Viajamos 42 horas de trem, a partir de Barra Mansa (RJ). As montarias seriam do 1; Regimento de Cavalaria de Guardas, os Dragões da Independência.

De imediato, percebemos a arquitetura revolucionária e o planejamento arrojado marcas registradas de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.

A natureza, modificada pelo majestoso lago artificial (que tornou a seca suportável), doou à cidade um céu maravilhoso, que embeleza a noite do Planalto Central.

Tratava-se de uma metrópole diferente. Não havia um centro da cidade, apinhado de gente, de lojas, de edifícios gigantescos, vizinhos, com paredes comuns. Não existiam formigueiros humanos, onde, apressados tropeçam uns nos outros, nem se cumprimentam. Poucas pessoas caminhavam pelas ruas. A vista se perdia no horizonte. Nenhuma elevação servia como referência. Orientação difícil, avenidas largas, nomes aliados a pontos cardeais (como se todos andassem com uma bússola, no bolso ou na cabeça). O trânsito fluía com muita facilidade, em meio a pouquíssimos semáforos.

Construções e obras públicas se multiplicavam. Àquela época, só havia o Setor Hoteleiro, a Asa Sul, a Vila Planalto e os eixos Monumental e Rodoviário. No entanto, era evidente que Brasília significaria muito para o futuro do país.

Em 1976, voltei, com a esposa e dois filhos, para trabalhar e morar, no Setor Militar Urbano. Corria diariamente, com meus subordinados, nas trilhas cor de tijolo que cortavam o cerrado ; Água Mineral, Parque da Cidade, HFA, Octogonal, Cruzeiro, UnB. Nos fins de semana, futebol e dupla de vôlei, no Iate, no Clube do Exército e no Clube da Aeronáutica. Já estava apaixonado por Brasília.

Infelizmente, em 1978, fui obrigado a partir. As sucessivas transferências, comuns na carreira militar, só me permitiram voltar à capital, em 1988.

Em 10 anos, Brasília atraiu muita gente. Estava muito mais verde. Cerca de dois milhões de habitantes se espalharam pelo Plano Piloto, por novos bairros e pelas cidades-satélites. Meus filhos, já adolescentes, sentiram a mudança, mas logo se adaptaram perfeitamente. Dois, de meus três netos, mais tarde, nasceram aqui.

Brasília, repleta de embaixadas e estatais, recebe nacionais e estrangeiros, de braços abertos, como compete ao centro político-administrativo de um dos 10 mais importantes países.

A desorganização na ocupação dos espaços urbanos e o vertiginoso crescimento populacional criam desafios permanentes para os governantes. Nada que um país rico e promissor como o Brasil não possa enfrentar. Bastam uma gestão competente e um efetivo combate à corrupção (ações esquecidas por longo tempo) para assegurar a alocação criteriosa dos recursos públicos.

Brasília é um orgulho para todos os brasileiros. Aqui se instalou a maior experiência cultural do país, uma convivência fantástica e bem-sucedida dos mais variados segmentos da sociedade tupiniquim.

Para o resto do mundo, a Jovem Senhora, Rainha do Planalto Central, é um museu candango a céu aberto, o maior e mais bem-sucedido exemplo de interiorização de poder da história css0ontemporânea.

General Augusto Heleno Ribeiro Pereira, Gabinete de Segurança Institucional (GSI)

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