De levantar poeira

Carolina Cotta
postado em 03/03/2014 00:00
 (foto: FOTOS: PAULO FILGUEIRAS/EM/D.A PRESS)
(foto: FOTOS: PAULO FILGUEIRAS/EM/D.A PRESS)

Nada de repiques, caixas ou tamborins. Foi o Tambor Mineiro que arrastou o folião pelo Prado na tarde de ontem. À frente do bloco, Maurício Tizumba fez um passeio pelo tradicional bairro da Região Oeste da capital mineira, encerrado com um show de percussão de levantar a poeira. Sambas de roda, sambas-enredo e clássicos da música popular brasileira ganharam um acompanhamento sincronizado e democrático: na bateria, crianças, adultos e idosos não deixavam ninguém parar com os pés no chão. As vozes também variavam ao microfone. Tizumba passou a vez para vários músicos convidados e fez até dueto com um dos líderes do bloco Baianas Ozadas, Geo Cardoso, um dos destaques do carnaval de hoje.

A música tema do bloco Tambor Mineiro, estreante no carnaval de BH, era um grito contra o preconceito e estava na boca de todos. Os versos de Tinga ; o jogador do Cruzeiro, hostilizado por torcedores peruanos na Copa Libertadores, virou nome de canção ; pediam igualdade e o fim da violência contra os negros: ;Ô Tinga, ô Tinguê, Tinga Guerreiro. Tomara Deus mudar, o mundo pra melhor, pra todo mundo, em todo lugar, não só para alguns.; Considerado uma herança da cultura negra do estado, o Tambor Mineiro trouxe para a rua, e para a ponta da língua dos foliões, ícones musicais que falam do racismo, como Canto das três raças, sucesso na voz da mineira Clara Nunes.

Para Maurício Tizumba, se o carnaval de BH renasce da iniciativa popular, responsável por voltar com a festa para as ruas, não havia como ele ficar de fora com seu Tambor Mineiro. ;E não poderia também pular carnaval com o povo sem falar do negro que carrega o carnaval brasileiro nas costas. Foi Tinga, mas poderia ser Alexandre, Tizumba e tantos outros negros que sofrem o racismo na cara nesse país cheio de negros;, defendeu o artista, que também fez sua declarada homenagem ao estado quando cantou o Peixe vivo e comparou as belezas baianas à mineiras. Os mais de 300 presentes se emocionaram.

Foi uma estreia tardia para a psicóloga Carolina Horta, de 34 anos. Apesar de morar em BH há anos, foi a primeira vez que não fugiu para sítios. Ela representa um grupo acostumado a deixar a cidade, mas que resolveu dar uma chance à folia local. E não se arrependeu. Ao lado do marido, Ivan Ferreira, ela curtiu o som do Tambor Mineiro. No sábado, tinha aproveitado o Tambolelê. ;É um carnaval diferente, tem esse som de Minas pelas ruas. Aproveitei que moro pertinho e vim prestigiar;, conta a foliã, que não gosta de tumulto. ;Estou adorando o carnaval de BH. A cidade está vazia, parada, e ao mesmo tempo cheia de atrações.

ALCOVA Na Praça da Savassi, no começo da noite milhares de foliões já se agrupavam para esperar o principal bloco, o Alcova Libertina.


Sempre cabe mais um
Na Concórdia, Região Nordeste de Belo Horizonte, outro grupo reforçava sua cultura. Depois de 25 anos, Belo Horizonte voltou a ter um afoxé: o Bandarerê. Candomblecistas de diversos terreiros da região metropolitana se reuniram no bairro, que é considerado um reduto dessa religião. Segundo o taxista Márcio Kamus;ende, de 40 anos, xikaringoma (mestre de cerimônia) em um desses terreiros, a ideia surgiu no fim do ano passado. ;Pensamos que se estivéssemos em Salvador teríamos afoxé no carnaval. A ideia era dar uma voltinha na praça, mas percebemos que o cortejo ia crescer.;

Mais de 100 pessoas participaram da celebração. Para o grupo, no carnaval não há separação entre o sagrado e o profano, e o afoxé, que nada mais é do que o cambomblé vivido na rua, é algo lúdico. ;O Bandarerê representa nossa vontade de trazer a força do axé e do camdomblé para Minas Gerais;, explicou Márcio, ao som dos atabaques, agogôs e cabaças que marcavam o compasso. O desfile pelas ruas, entretanto, só começou depois de os babalorixás, também conhecidos como pais de santo, fazerem uma oferenda a Exu, considerada divindade que abre os caminhos. Se não tem nem de longe o porte dos famosos afoxés baianos Filhos de Gandhi ou Korin Efan, nessa nova safra do carnaval mineiro mais uma ala está pedindo licença.

Eu, folião
Erisvaldo Pereira dos Santos
50 anos, professor universitário


Pouco difundidos em BH, os babalorixás são figuras tradicionais do carnaval, como no afoxé Filhos de Gandhi, de Salvador. Cabe a eles pedir a Exu que abra os caminhos para a passagem do candomblé nas ruas. Com o Afoxé Bandarerê, o professor da Ufop e babaloxirá Erisvaldo Pereira acredita que a capital mineira vai agregá-los à festa, ainda que andassem esquecidos. ;Iríamos abrir o desfile das escolas de samba. Essa é uma tradição nacional, ocorre no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas na última hora a Belotur cancelou nossa participação;, desabafou. Mas isso não impediu que ele ontem aproveitasse com sua comunidade a folia de Momo no Bairro Concórdia.

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