Eles não ligam para o Mundial

Eles não ligam para o Mundial

Muitos brasileiros não estão contagiados com o clima da Copa do Mundo. A fim de fugir da irritação com a parada de serviços durante os jogos ou marcar a contrariedade com a realização das partidas no Brasil, alguns decidiram viajar

» GLÁUCIA CHAVES
postado em 27/05/2014 00:00
 (foto: Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press)

De quatro em quatro anos, o verde-amarelo-azul-e-branco volta à moda: bandeirinhas, balões, cornetas e qualquer outro penduricalho nas cores espalham-se por toda a parte. Mas não é todo mundo que se sente tocado pelo frisson da Copa do Mundo. Para algumas pessoas, como o dermatologista Gilvan Alves, 48 anos, o melhor a fazer durante o Mundial é ficar bem longe dos estádios ; e, se possível, do país. Ele está com passagens compradas para Londres e viaja no primeiro dia da competição.

O retorno está marcado para a mesma data ; e mesmo horário ; da grande final. A viagem será duplamente oportuna: além de fugir do ;clima de Copa;, ele aproveitará o momento em que a procura por seus serviços tende a diminuir para tirar férias. ;Eu sei que, por aqui, o futebol é uma paixão nacional, mas não para mim;, reforça. ;Gosto do Brasil como país, mas não sou torcedor de nenhum esporte. Além do mais, acho que a Copa exalta um nacionalismo exagerado.;

Encarar o Mundial como a competição mais importante do mundo, para Gilvan, é desnecessário, uma vez que a Copa do Mundo é um evento esportivo como qualquer outro. ;É como se fosse um campeonato internacional de basquete, golfe;, exemplifica. ;Eu acho que exagerar dessa forma é querer transformar os jogadores em heróis nacionais.; Há até quem duvide do patriotismo de Gilvan, mas ele não se abala. Em seu consultório, mantém uma bandeirinha do Brasil em cima da mesa ; mas a esconde durante Copas do Mundo. ;A bandeira é do meu país, não de um time de futebol.;

Pesquisa
Gilvan não está sozinho ; segundo pesquisa, 22% dos brasilienses não estão empolgados (leia Para saber mais). Analice Cabral e o marido, Hernani Lopes Lourenço, 35 e 39 anos, respectivamente, fazem parte do time dos que não se prendem por causa da Copa. O casal tem viagem marcada para São Paulo, de 4 a 7 de julho, e não é para assistir aos jogos. ;Na volta, pretendemos não sair de dentro de casa;, comenta a advogada. A pausa de serviços durante as partidas irrita Analice: para ela, a competição não deveria ser uma desculpa para o país parar. ;A resposta é sempre a mesma: ;Só depois da Copa;;, reclama. ;Nada funciona como deveria, todos os erros são justificáveis.;

Hernani faz coro: para o administrador, os gastos com as preparações para o Mundial diminuíram a euforia do brasileiro. ;Dá para ver que o país está pouco envolvido, você não vê aquela animação que tivemos de outras vezes. O país carece de outras bens que não a construção de estádios. Acho que isso desmotiva;, reforça. Ele conta que até gosta de futebol, mas prefere investir o tempo na manutenção de carros antigos. Ao todo, a coleção do casal tem 12 veículos fabricados nas décadas de 1960, 1970 e 1980.

Muvuca
Ingrid Queiroz, 19 anos, também estará de malas prontas quando os jogos começarem: a fotógrafa trocará os gritos de gol pelas areias de praias do exterior, durante toda a primeira semana do Mundial. ;Os aeroportos estarão impossíveis e vai ser ótimo estar longe dessa muvuca;, pondera. O trânsito caótico e o medo pela falta de segurança são dois dos principais motivadores para sair do país, segundo ela. ;Eu acredito que o país investiu muito em uma coisa que poderia ter sido direcionada para a saúde ou a educação;, opina.

Quando Ingrid voltar, ainda faltará algum tempo para a Copa chegar ao fim. Mas ela já tem planos: colocar a lista de filmes por assistir em dia. ;Tentar sair da cidade vai ser pior, então, vou tentar usar os recursos que tenho aqui. Ir ao cinema, alugar um filme, qualquer coisa.; Ingrid até gosta do clima da Copa. Ela admite que, quando chegar de viagem, provavelmente acompanhará algumas partidas ; desde que seja dentro de casa.

Para saber mais

Desinteressados, mas confiantes

Apesar de morarem no país do futebol, muitos brasileiros não estão animados para a Copa. É o que diz um levantamento feito pela Ipsos Media CT, empresa especializada em pesquisa de mercado e interpretação de dados. Ao todo, 57.700 pessoas acima de 13 anos foram entrevistadas, em 13 regiões do país. A pesquisa descobriu que o maior índice de desinteressados está no interior de São Paulo: 32%. Belo Horizonte e Vitória aparecem em seguida, com 31% cada. Em Brasília, 22% dos entrevistados afirmaram não ter nenhum interesse pelo Mundial. Segundo Diego Oliveira, diretor de contas da empresa, o objetivo principal do levantamento foi entender a relação de consumo entre as pessoas e as marcas da Copa. ;Queríamos saber do interesse das pessoas pelo tema Copa, o quanto estão buscando informações e quão motivadas estão.; Em contrapartida, os brasilienses que estão animado, também seguem confiantes: Brasília ficou em segundo lugar entre os que mais acreditam na vitória da Seleção (49%), perdendo apenas para Fortaleza (54%).



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