Ensinar engenharia, um ato político

Ensinar engenharia, um ato político

JOÃO FRANCISCO JUSTO FILHO Ph. D. pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), é professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
postado em 16/06/2014 00:00

Na história da humanidade, não há exemplo de sociedade que tenha alcançado prosperidade econômica sem ter anteriormente consolidado uma vantagem competitiva. Nessa perspectiva, o Brasil ainda carece de projeto nacional intimamente comprometido com a busca dessa vantagem. O investimento no desenvolvimento tecnológico é um dos caminhos mais eficientes para alcançá-la, embora o Brasil continue sendo majoritariamente um importador de conhecimento, o que dificulta promover uma revolução tecnológica.

O país ainda carece de um sistema industrial sofisticado, que agregue valor aos produtos, de tal forma a passar a ser primordialmente um exportador de bens com alto valor, em vez de exportador de matérias-primas. Um elemento que chama a atenção, por exemplo, é que, entre as 10 maiores economias mundiais, o Brasil é o único país que não tem uma indústria automotiva própria.

É fato que o sistema industrial brasileiro ainda carece de complexidade e diversidade, elementos que demandam tecnologias avançadas, além de intrincados sistemas de gestão e logística. O ingrediente primordial para o desenvolvimento tecnológico é a formação de recursos humanos altamente qualificados, particularmente de engenheiros.

O Brasil enfrentou, recentemente, uma escassez de engenheiros, a ponto de criar uma demanda por profissionais estrangeiros. Embora haja uma percepção predominante da necessidade de se formar maior número desses profissionais, mais importante seria discutir o perfil desses profissionais, cenário mais aderente ao fomento de tecnologia nacional.

Considerando esses elementos, é oportuno que as escolas brasileiras de engenharia busquem um novo paradigma curricular, para entrarem em sintonia com as duas revoluções pedagógicas que ocorreram no ensino da engenharia desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

A primeira revolução, nos anos 1950, introduziu o conceito de science engineering, processo liderado pelo Massachusetts Institute of Technology, que promoveu uma aproximação das engenharias com as ciências fundamentais. Na última década, uma nova revolução está em curso, com a disseminação do conceito de system engineering, em que o ensino da engenharia vem sendo tratado com uma visão holística e interdisciplinar, transversal às diversas áreas tradicionais das engenharias.

As escolas brasileiras de engenharia ainda estão tentando transpor a primeira revolução e já são atropeladas pela segunda. Se buscam estar em sintonia com a realidade do ensino em nível mundial, devem então estabelecer programas curriculares que deem atenção à combinação de competências analíticas, propiciando ao aluno o domínio das teorias fundamentais aplicadas a problemas interdisciplinares, e competências não analíticas, fomentando criatividade, empreendedorismo, governança, liderança, capacidade de trabalhar em grupo, visão estratégica, ética e responsabilidade socioeconômica.

Embora essa combinação de elementos seja fundamental para a formação de um engenheiro globalizado, as escolas brasileiras ainda dão pouca atenção, em seus programas curriculares, aos elementos não analíticos. Com certeza, o mercado tem espaço para assimilar engenheiros dos mais diversos perfis. Entretanto, essas competências não analíticas são fundamentais para fomentar o desenvolvimento de novas tecnologias, novos processos industriais, novos produtos, entre outros.

Segundo o pedagogo Paulo Freire, ;ensinar é um ato político;. Considerando as premissas e o impacto na formação de lideranças, com potencial de desempenhar papel transformador na sociedade brasileira, a frase não poderia ser mais atual para o ensino de engenharia. Incorporar essa percepção nos conteúdos curriculares, e promover uma revolução pedagógica, é o grande desafio das escolas brasileiras. Como resultado, permitiria vislumbrar o país alcançando o domínio tecnológico em diversas áreas, o que poderia levar à tão almejada vantagem competitiva.

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