Crônica da Cidade

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Ratos do Cerrado

por Conceição Freitas >> conceicaofreitas.df@dabr.com.br
postado em 26/06/2014 00:00
Não, caros amigos, esta crônica não vai tratar daqueles ratos, cuja espécie e nomenclatura é de conhecimento geral. Tratar-se-á (como se dizia no tempo em que usar a mesóclise era chique) de outro tipo de roedor, o mamífero mais mal-falado do planeta. Matéria publicada neste matutino, na segunda-feira passada, conta que um novo gênero foi descoberto no Brasil ; na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, região de cerrado. Foi batizado de Calassomys apicalis, o rato-do-rabo-branco. Garboso o tipo, com uma cauda de 15cm, um terço dela totalmente branca.

De roedores, Brasília conhece. Um dos últimos gêneros descritos no Brasil foi encontrado em Brasília em 1965, e, por isso mesmo, denominado Juscelinomys candango. O personagem ganhou um verbete no pequeno dicionário BrasíliA-Z, do poeta Nicolas Behr, recentemente lançado.

O verbete Juscelinomys candango é quase uma fábula:
;Era uma vez uma família de oito ratinhos, que vivia tranquilamente onde hoje está o zoológico de Brasília. Eram roedores bem diferentes, únicos, pois ainda não haviam sido descritos pela ciência. Receberam o nome de Juscelinomys candango, literalmente, o ;rato de JK;, pois mys é rato em grego. JK, com certeza, não gostou da ;homenagem;. Nem os ratinhos, pois foram todos capturados e mortos, sendo suas peles enviadas para o Museu Nacional no Rio de Janeiro. Nossa história não tem um final feliz. É que nunca mais se encontrou outra família de tais ratinhos diferentes, de cor castanho-alaranjado, listrinhas pretas e uma cauda curta e peluda. Sua descoberta representou sua extinção. Fim.;

Quando os tratores começaram a ferir o cerrado para construir a nova capital, cobras, lagartos, escorpiões, aranhas, ratos e toda a bicharada que se escondia entre as pedras e a vegetação do cerrado ficou atordoada. Foi como se E.T.s da civilização terráquea tivessem invadido o planeta dos bichos peçonhentos. Diante da ocupação brutal, sem ter onde se esconder, eles procuraram abrigo onde havia: nos barracos, nas casas, nos bares, nos restaurantes, nos armazéns, nos depósitos, em qualquer escuridão protetora.Houve uma proliferação espantosa de ratos ; a nova capital também era o Eldorado dos roedores. O lixo dos homens engordava os bichinhos nojentos.

Artigo dos pesquisadores Louise Emmons e James Patton, disponível na internet, informa que Juscelimonys não é apenas o nome de uma espécie, mas de um gênero de roedores, com apenas duas espécies conhecidas. Uma delas foi descrita no Brasil Central (o nosso candango) e o outro na Bolívia. O boliviano ;ocorreu esporadicamente no espaço e no tempo;. O candango também deu chá de sumiço.
Ficaram só os outros, aqueles.

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