Conexões de linguagens no corpo

Conexões de linguagens no corpo

A Companhia Quasar se apresenta em Brasília com o espetáculo no Singular. No próximo ano, o grupo lança documentário

Rebeca Oliveira
postado em 26/06/2014 00:00



Em 25 anos de estrada, a goiana Quasar Cia. de Dança em nada envelheceu. Prova disso é o espetáculo no Singular, o 23; do grupo, com apresentação marcada para hoje no CCBB. Em sua estreia em Brasília, após elogiada turnê nacional, no Singular converge mídias digitais e dança contemporânea de maneira inusitada. Como tem feito nas cidades por onde já excursionou, o grupo gravou uma entre as dezenas de coreografias que compõem o espetáculo e a disponibilizou no Youtube. Quando a cortina se abre, a plateia pode invadir os palcos e interagir com os bailarinos. Mais que derrubar a parede imaginária que separa elenco do público ; a chamada quarta parede ;, a Quasar recorre a elementos do teatro e da música como se a linha tênue que os separa jamais tivesse existido.

E sétima arte não fica à margem dessa miscelânia cultural proposta pela Quasar. ;Diretores de cinema têm a facilidade de transmitir novos olhares;, comenta Henrique Rodovalho, criador da companhia ao lado da amiga (e também coreógrafa) Vera Bicalho. O flerte com o cinema é tamanho que, em 2015, o espetáculo Por 7 vezes ganhará adaptação para as telonas. O enredo é dividido em sete coreografias, cada uma representando uma parte do corpo humano e se movendo de forma independente.

No longa, batizado de Empresta-se teus olhos, sete diretores expõem suas visões sobre o espetáculo. Duas cineastas já estão confirmadas: a paulista Tata Amaral (de Um céu de estrelas e Antônia) e a portuguesa Maria de Medeiros (de Repare bem). ;Elas aceitaram prontamente o nosso convite. Será a visão delas de uma obra pronta, mas que ganhará novo fôlego por meio da criação de ambas;, comemora Henrique. ;Iremos alugar um grande estúdio em São Paulo e os diretores nos assistirá por dois dias. Eles poderão gravar da maneira que quiserem, terão total liberdade;, explica o coreógrafo.

Estereótipos
Nos mais de 25 países por onde já passou, a Quasar Cia. de Dança surpreendeu o público ao quebrar estereótipos e paradigmas relacionados à dança brasileira. ;Na Tailândia e no Vietnã, por exemplo, havia uma imagem da produção nacional ligada apenas ao samba; Quando nos assistiram, comprovaram que fazíamos algo mais específico. Os deixamos muito emocionados;, recorda Henrique Rodovalho.



No Singular
Da Cia. de dança contemporânea Quasar, com direção de Vera Bicalho e Henrique Rodovalho. Hoje, às 20h; e amanhã, às 20h e às 21h30, no Teatro 1 do CCBB (Setor de Clubes Esportivos Sul, Tr. 2, lt. 22; Asa Sul, fone 3108-7600). Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Informações: 3202-3277. Livre para todas as idades.



;Essa relação de movimento, de reunir várias linguagens, é o que nos mantém vivos. Tenho uma inquietude que contribui tanto para a quantidade de espetáculos quanto para a qualidade deles;
Henrique Rodovalho, coreógrafo da companhia Quasar




Quatro perguntas/ Henrique Rodovalho

A Quasar estreia, em média, um espetáculo por ano. Como se mantém ativo e, ao mesmo tempo, excursionando por tantas cidades e países?
O espetáculo no Singular é a 23; obra da Cia., em 25 anos de existência. Nos mantemos ativos porque cada uma de nossas obras alcançam reconhecimento. Isso nos estimula muito. Essa relação de movimento, de reunir várias linguagens, é o que nos mantém vivos. Estou em constante pesquisa e aprimoramento. Tenho uma inquietude que contribui tanto para a quantidade de espetáculos quanto para a qualidade deles.

E quais as fontes de inspiração?
A inspiração surge de formas variadas. Se trabalhássemos sempre do mesmo jeito ou seguindo o mesmo caminho, nosso trabalho iria saturar, seria limitar muito o processo criativo. A ideia advém de repente, por meio da música, de um conceito, do movimento; São várias as possibilidades dentro da nossa trajetória. no Singular parte do princípio de aproveitar a dinâmica do saber, que, hoje, vem da internet e das redes sociais. Pensei em como aproveitar, dentro de um espetáculo de dança, a facilidade e a quantidade de informações que se pode adquirir apenas com um clique. Nos interessava mostrar isso. Mudamos de música, ação e movimento rapidamente, isso demonstraria a maneira como a informação circula na rede. Discutimos o limite entre o mundo virtual e o real. Comparamos a dança a um site. Você clica em um link e abre outra página. Então, fazemos vários exercícios para mostrar como uma coreografia ou movimento pode se ligar a outro.

O que mudou nesses 25 anos de estrada?
No começo, havia vontade e responsabilidade, mas não tínhamos muita técnica ou estrutura. Éramos um grupo de jovens tentando nos expressar e buscar uma forma comunicação por meio da dança. Com o passar do tempo, fomos adquirindo mais estrutura e técnica. Foi aí que desenvolvemos um estilo, principalmente a partir de 1998. Antes disso, o movimento não era muito claro; e, então, passamos a nos preocupar com algo que fosse verdadeiro. Hoje, percebo uma terceira fase do grupo, que é quase um resgate do nosso começo, com irreverência, frescor, mas já dentro de uma estrutura e condição técnica bem melhor e mais consciente. Os espetáculos têm esse humor e buscam o interior, que ecoa em nós com perguntas como: estamos nos repetindo? É isso que queremos dizer? Faço esses questionamentos o tempo inteiro. Essa é nossa atual fase, de repensar tudo, mas, querendo ou não, levando em conta essa carga de 25 anos. Mesmo se quisesse, não teria condições de apagar essa bagagem.

Em termos técnicos e práticos, a dança brasileira evoluiu?
Há 20 anos, prevalecia a sensação de que os bailarinos eram muito envolvidos com a dança, e, hoje, eles têm comprometimento, sim, mas também flertam com outras linguagens. Os bailarinos mais jovens têm um leque maior. Se é melhor ou pior, não sei, mas, sem dúvida, é uma geração mais antenada. Antes, o balé clássico era muito fechado, e a dança contemporânea oferece mais possibilidades. O público quer assistir a coisas com as quais haja identificação pessoal, entendimento, envolvimento.

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