Uma escrita feita de memórias

Uma escrita feita de memórias

Autor de 29 livros e especialista em temáticas que tratam da identidade e da memória, o francês Patrick Modiano ganha o prêmio Nobel, o máximo da literatura mundial

» Nahima Maciel
postado em 10/10/2014 00:00

Patrick Modiano ficou bastante surpreso ao receber o telefonema de Antoine Gallimard, da editora Gallimard, com a notícia de que havia sido agraciado com o Prêmio Nobel. Em entrevista coletiva ontem à tarde em Paris, na sede da editora, o escritor francês disse que ainda não entendia a escolha da Academia Sueca, mas que estava muito feliz.

;Parece-me um pouco irreal porque eu tenho lembranças de infância, até de Camus, eu devia ter uns 12 anos, e de outros. Parece-me parece um pouco irreal ser confrontado com essas pessoas que eu admiro;, disse Modiano, o 15; francês a receber o Nobel de Literatura. ;Foi como uma espécie de desdobramento de um outro que tinha o mesmo nome que eu. Tudo isso foi um pouco abstrato. Eu vi que estava nas listas, mas não esperava de jeito nenhum!”, confessou. ;Eu queria saber como eles explicaram essa escolha e quais são as razões pelas quais eles me escolheram.;

Modiano dedicou o prêmio ao neto, que é sueco. Durante a entrevista, Antoine Gallimard citou a modéstia do escritor e disse que já estava pensando no discurso que Modiano precisará fazer para a cerimônia de recebimento do prêmio. O editor destacou ainda que não imaginava outro Nobel francês em tão pouco tempo. ;Pensei que seria preciso esperar 30 anos para que outro francês fosse coroado pelo Nobel depois de Le Clézio;, afirmou. Jean-Marie Gustave Le Clézio ganhou o Nobel em 2008.

Patrick Modiano, 69 anos, é autor de 29 livros, entre contos, romances e roteiros para cinema. Filho de um judeu de origem italiana e de uma atriz belga, ele cresceu na região de Paris e passou a vida ouvindo histórias sobre o pai, que deixou a família quando o escritor era criança. A ausência paterna e as constantes viagens da mãe foram decisivas para a escrita de Modiano, cuja família era abastada, mas bastante ausente. Seus romances frequentemente se debruçam sobre personagens embrenhados em questões de identidade, esquecimentos, lembranças e memórias.

A própria biografia do autor serve de fonte para as histórias, mas ele destaca que esse material só tem interesse se for ;vaporizado pela imaginação;. O escritor nasceu em julho de 1945, dois meses antes do fim oficial da Segunda Guerra, mas as histórias da ocupação alemã sempre povoaram seu imaginário e muitas delas estão presentes nos romances. Paris também é locação importante e presente nas narrativas.

Sem educação superior e apenas com o ensino fundamental, Modiano foi introduzido no mundo literário graças a Raymond Queneau, autor de Zazie dans le metrô e professor de geometria que acabou virando amigo. O primeiro livro ; La place de l;Étoile ; foi lançado em 1967, mas foi com Ronda da noite, em 1969, que ele começou a ganhar destaque no mundo literário. O romance ; publicado no Brasil pela Rocco em 1985 e hoje esgotado ; narra a trajetória de um rapaz que tenta entrar para a Resistência durante a ocupação nazista, mas não consegue e acaba trabalhando para os alemães.

Segunda Guerra
Com Uma rua em Roma, em 1978, vem a primeira consagração. Modiano ganhou o Prêmio Goncourt, um dos mais prestigiados da França, pelo romance sobre um homem que sofre de amnésia e tenta recuperar a própria memória. A referência à Segunda Guerra aparece em outros livros, como Dora Bruder (também lançado no Brasil nos anos 1980 e esgotado) e Les boulevards de ceinture (inédito no Brasil). Do autor, a Rocco lançou ainda Vila triste, Meninos valentes e Do mais longe do esquecimento, todos esgotados. A CosacNaify lançou ainda Filomena Firmeza, uma parceria do escritor com o ilustrador Sempé.

Em outubro, Modiano publicou Pour que tu ne te perdes pas dans le quartier, um pequeno romance sobre as memórias de infância de um homem cujos pais eram, também, ausentes. ;Com frequência, nossas lembranças sobre determinado período específico de nossa vida não correspondem às lembranças que as testemunhas têm. Ao ponto de nos perguntarmos se a busca do tempo perdido não é uma empreitada destinada ao fracasso, enevoada pelo esquecimento e pelas lembranças que você acaba por se perguntar se não seriam imaginárias;, disse o escritor, em entrevista ao editor do romance.


Modiano e o cinema
O cinema também é parte importante da obra de Patrick Modiano. Foram sete roteiros ; alguns resultantes de adaptações dos romances, outros inteiramente criados pelo escritor ; e uma atuação em um filme. A primeira incursão por trás das câmeras foi em 1974, com Lacombe Lucien, de Louis Malle. Em seguida, viriam Une jeunesse (Moshé Mizrahi), Le parfum d;Yvonne (Patrice Leconte) e Te quiero (Manuel Poirier), todos adaptações de romances do próprio autor. Para Jean-Paul Rappeneau, ele escreveu o roteiro de Bon voyage, em 2003. Também apareceu como ator em Genéalogies d;un crime, de Raoul Ruiz.


Principais livros publicados

- La place de l;Étoile (1968)
- La ronde de nuit (1969) ; publicado no Brasil como Ronda da noite
- Les Boulevards de ceinture (1972)
- Villa triste (1975) ; publicado no Brasil como Vila triste
- Livret de famille (1977)
- Rue des boutiques obscures (1978) publicado no Brasil como Uma rua de Roma
- De si braves garçons (1982) publicado no Brasil como Meninos valentes
- Quartier perdu (1985)
- Remise de peine (1988)
- Vestiaire de l;enfance (1989)
- Fleurs de ruine (1991)
- Un cirque passe (1992)
- Du plus loin de l;oubli (1996) publicado no Brasil como Do mais longe do esquecimento
- Dora Bruder (1997) publicado no Brasil como Dora Bruder
- Des inconnues (1999)
- La petite bijou (2001)
- Accident nocturne (2003)
- Un pedigree (2005)
- L;horizon (2010)
- L;herbe de nuit (2012)
- Pour que tu ne te perdes pas dans le quartier (2014)

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