Um reforço e tanto

Um reforço e tanto

postado em 17/03/2015 00:00
 (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press - 4/3/15)
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press - 4/3/15)

Em Santarém ou em Fordlândia, a lembrança imediata de Rayline era como ela era boa de bola. Mas Rayline tinha planos mais ambiciosos do que brilhar nas partidas dos campos de terra batida e areia do Oeste do Pará. Além de batalhar pelo documento que a permitiria dirigir carros e motos, ela pagava a ampliação e reforma da pequena casa da família em Fordlândia. O salário que recebia para trabalhar na aldeia munduruku era considerado muito bom pelos parentes. Ela ganhava R$ 2.006, mais uma ajuda de custo de R$ 20 por diária fora de casa, o que ampliava o rendimento em R$ 400. Fazia dois anos que estava no trabalho. Antes, foi técnica em enfermagem no posto de saúde de Fordlândia.

;Ela era apegada demais à família, uma criança dentro de casa: abraçava e beijava a gente o tempo todo. Uma alegria só;, lembra a mãe, com a voz embargada e os olhos cheios d;água. O nome da técnica de enfermagem nasceu de uma junção dos nomes da família. ;Coloquei em um caderno, misturei, acrescentei um y e inventei: Rayline;, explica a mãe, Rosalina Duarte Brito. O pai, Raimundo de Brito e a irmã, Rosaline Brito Campos, cinco anos mais velha, contribuíram para a combinação de prefixos e sufixos.

Muitos preferiam chamá-la apenas de Ray. A irmã, Rosaline, principal conselheira e melhor amiga, usava simplesmente ;mana;. Formada em filosofia e professora, a irmã era uma espécie de segunda mãe para a caçula. ;Poucos dias antes do acidente, ajudei ela a montar um currículo. O plano era que ela encontrasse outro emprego assim que voltasse da aldeia;, recorda Rosaline.

Vida

Pouco depois da morte de Ray, Rosaline descobriu que estava grávida. Ela já tinha uma filha, Angelina Campos, 6 anos. ;A Angelina ficava passando a mão na minha barriga e dizendo que tinha sonhado que a tia Ray falou que ela ia ganhar uma irmãzinha;, lembra Rosaline. ;Eu disse: menina, deixe de bobagem! Não tem nada disso.;

Rayline Sabrine Campos Souza nasceu em 20 de fevereiro. Com 13 dias de vida, Rayline, a bebê, foi de barco para a casa, em Fordlândia. Menos de um ano antes, o corpo da tia que empresta o nome para a recém-nascida fez o mesmo trajeto, no caixão, para ser enterrado. Amanhã, na igreja de Fordlândia, será realizada a missa de um ano de morte.

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