Fernando Brant, pensador de seu tempo

Fernando Brant, pensador de seu tempo

Morto no último dia 12, letrista mineiro e integrante do Clube da Esquina construiu obra politizada tratada com sutileza

GABRIEL DE SÁ
postado em 20/06/2015 00:00







Um dos principais parceiros de Milton Nascimento e sócio-fundador do Clube da Esquina, o letrista mineiro Fernando Brant, nascido em Caldas e morto no último dia 12, aos 68 anos, ajudou a criar um dos cancioneiros mais consistentes da música popular brasileira. Desde o fim da década de 1960, quando estreou na canção ao lado do amigo Bituca, Brant utilizou sua pena para retratar o Brasil da forma como ele o vislumbrava. Cidades imaginadas, linhas de ferro metafóricas, viagens transformadoras e religiosidade além das igrejas estiveram constantemente em suas composições. Em comum, o tom político que o poeta engajado esmerava-se em propagar por entre seus escritos, mas com as sutilezas que a discrição mineira apregoa.

Para o compositor mineiro Flávio Henrique, parceiro de Brant em três canções, tal sutileza tem a ver com o fato de que boa parte da obra do letrista foi erguida em plena ditadura militar, o que o obrigava a encontrar brechas poéticas para passar suas mensagens. O conteúdo político, contudo, mesmo que discreto, estava lá. ;Brant não era agressivo em sua letras, utilizava-se muito de metáforas;, observa Flávio.

A política, por vezes, aparece escancarada, como em Coração civil, parceria com Milton, lançada em 1981. ;Quero que a justiça reine em meu país (;) Quero nossa cidade sempre ensolarada/Os meninos e o povo no poder, eu quero ver;, diz a letra, em cujo refrão Brant evoca a Costa Rica, país que, à época, não tinha um exército constituído, como forma de inspiração utópica para o Brasil. ;Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder?/Viva a preguiça viva a malícia que só a gente é que sabe ter/Assim dizendo a minha utopia/Eu vou levando a vida, eu vou viver bem melhor;;. Civismo, ética e engajamento são conceitos suscitados por Brant.

Direitos autorais
Formado em direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Fernando Brant atuou também como jornalista e foi um dos pioneiros na luta pela arrecadação de direitos autorais no país. O artista se empenhou na luta pelas Diretas Já, nos anos 1980, pelo fim do regime militar. ;Ele não tinha medo de se posicionar na defesa dos direitos democráticos;, diz Flávio Henrique.

O pesquisador e historiador mineiro Bruno Viveiros Martins, autor do livro Som imaginário ; A reinvenção da cidade nas canções do Clube da Esquina (Editora UFMG, 2009), observa que as músicas políticas do movimento nascido em Belo Horizonte nada tem a ver com as canções de protesto tão em voga no fim da década de 1960. ;A ditadura estava esvaziando o espaço público da época, que era a cidade. Em contrapartida, o Clube da Esquina colocava a cidade novamente como o lugar do encontro e da socialização. O próprio nome do movimento traz essa ideia embutida em si;, defende ele. Saudade dos aviões da Panair, também conhecida como Conversando no bar, exemplifica bem a importância das relações sociais erguidas a partir dos espaços públicos, com a livre circulação de ideias.

A ideia de amizade, proveniente de tais encontros na cidade, ganham caráter político na poesia de Fernando Brant. Sentinela e Que bom, amigo, por exemplo, abordam o tema e trazem em si interpretações condizente com a época em que foram feitas. ;Vários jovens abandonaram suas vidas para se dedicar à luta armada, e muitos deles desaparecem. As músicas do Clube da Esquina, por vezes, traduzem esse sentimento;, acredita Viveiros.

Para o historiador, outro tema presente é a viagem como narrativa de uma busca pelo ainda não experimentado, como em Travessia, Nos bailes da vida, Saídas e bandeiras, O que foi feito devera e Manuel o audaz. ;Aquele que termina a viagem nunca é o que começou: ele vivencia as transformações ao longo do caminho e as transmite no fim;, explica.



;Na vida, não somos melhores nem piores que ninguém. Respeitamos nossos semelhantes. E continuamos acreditando na possibilidade do direito, da justiça social. E da beleza. Somos compositores brasileiros cheios de esperança. Singelamente ocupando os lugares que nos cabem.;
Fernando Brant

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