Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Conceição Freitas >> conceicaofreitas.df@dabr.com.br
postado em 30/06/2015 00:00
Que vidão!

Que vidão têm as pessoas daquela rede social! Como conseguem comer tão bem, viajar tanto, ter tantos amigos, curtir tanto a vida, quando eu, mal-e-mal, dou conta de vencer um dia e depois o outro e não poucas vezes ficar no meio do caminho esperando o dia terminar pra ver se no seguinte eu pego no tranco.

Dirão que sou depressiva. Não, não sofro de tristeza crônica. Minha lassidão é intermitente e, entre outras ocasiões, surge a cada vez que visito aquela rede. Ninguém ali tropeça ;publicamente no tapete das etiquetas;, como no poema de Fernando Pessoa. E eu, ;que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar. Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado/Para fora da possibilidade do soco;, fico sem lugar neste mundo virtual.

Há alguns dias, uma lésbica russa agredida nas redes sociais teve a pachorra de postar fotos de seus agressores com as frases que eles haviam destinado a ela. Imagens de moças e rapazes saudáveis, sorridentes, com bichinhos, com a família, em poses singelas e ternas, tendo como legenda as coisas horríveis que disseram sobre a homossexual.

E tem outra coisa que me perturba deveras. O mundo virtual é grande demais, é gente demais, são informações demais, opiniões demais. Sem que eu estivesse me preparado, o mundo à minha volta teve um inchaço demográfico de algumas centenas para milhares, milhões de pessoas. Não me refiro a leitores, evidentemente. Eu e qualquer um outro habitante da dimensão virtual estamos sozinhos num deserto de multidões incorpóreas.

Nesse domingo friorento, eu me vi assistindo a um filme no computador, respondendo a zaps e consultando o e-mail. Verdadeiramente, eu não estava em nenhum lugar. Descobri que é um bom modo de não existir fazendo de conta que se está expandindo a existência.

Para me sentir minimamente incluída na instância virtual tenho de estar ligada no zap, no face, no Twitter, no Instagram, no e-mail, no YouTube, no noticiário on-line ; o cardápio básico para alguém minimamente atualizada com as dimensões da realidade digital. Que tempo sobra para viver? Dormir? Ler? Ficar de bobeira?

É inevitável. O que seremos, daqui pra frente, terá a influência decisiva da cibernética. Do mesmo modo que jamais voltaremos a ser um caçador-coletor ou um agricultor sedentário ou um homem da Renascença, jamais existiremos sem uma máquina como extensão de nós mesmos.

A solidão, a boa solidão, a solidão criativa, foi-se pras cucuias. A privacidade, bem, ela já é um capítulo da história cotidiana de civilizações passadas. ;Nesta cidade do Rio, / de dois milhões de habitantes, / estou sozinho no quarto, / estou sozinho na América.; E o poeta queria pouco: ;Precisava de um amigo, / desses calados, distantes, / que leem verso de Horácio / mas secretamente influem / na vida, no amor, na carne;.

Eu que me debata com o novo mundo. E tente me integrar a ele, sob pena de me tornar invisível e inviável. Diante disso, criei uma fan-page para a publicação de crônicas, matérias e coisa e tal.

ERREI

Hoje é o aniversário de 90 anos de Ignez Carraca, e não na terça-feira passada, como foi informado em matéria dessa cronista neste jornal. Ignez é a pioneira que mora sozinha, dirige, toma vinho do padre observando os beija-flores na varanda do flat onde mora, é voluntária na Psiquiatria do Hospital de Base, faz enxoval para bebês de mães carentes e está sempre pronta a levar e buscar algum dos filhos, netos e bisnetos a bordo de seu possante Gol branco com adesivo do Botafogo. Parabéns, Ignez. Que venham outros 90!



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