Página difícil de ser virada

Página difícil de ser virada

postado em 01/07/2015 00:00
Por mais que propaguem a ideia de virar a página das notícias ruins, como se bastasse mudar de assunto para apagar os erros do passado recente, não dá para fazer de conta que nada aconteceu. Tampouco está próxima a solução, pelo menos quanto às trapalhadas nas contas públicas do primeiro governo de Dilma Rousseff. Pelo contrário. A cada dia se percebe que é muito fundo o buraco cavado, com propósitos eleitorais, por meio de agressões, às vezes grosseiras, aos mais elementares princípios de gestão do dinheiro público.

Talvez movido pelo desconforto de perceber que as pessoas, mesmo as menos informadas, já perceberam a razão e os culpados pela vida ter piorado do fim do ano passado para hoje, o ex-presidente Lula tem se movimentado para convencer os partidários a parar de falar em ajuste fiscal e alardear bons ventos de uma volta por cima. Mas a recessão, o desemprego e a inflação, contratados para 2015, não são invenção de suposta mídia golpista.

É pura imaginação de marqueteiro, mais uma vez desmentida pela dura realidade. Ontem, o Banco Central (BC) divulgou o resultado consolidado das contas do setor público. Corta daqui, enxuga dali e, mesmo assim, o rombo está longe de ser vencido. Em vez de almejado superavit, as contas de maio fecharam com preocupante deficit primário de R$ 6,9 bilhões. Com isso, o superavit acumulado nos cinco primeiros meses do ano baixou para R$ 25,5 bilhões, o pior resultado desde o início da série histórica, em dezembro de 2001.

Poderia ter sido até pior não fosse o desempenho de estados e municípios porque o governo central não conseguiu debelar o descompasso entre gastos e arrecadação. A recessão da economia afetou as receitas e a maioria dos custos da máquina continua resistindo. Por isso, a União teve resultado negativo de R$ 8,8 bilhões em maio, enquanto estados e municípios conseguiram superavit de R$ 2,04 bilhões. As empresas estatais não puderam ajudar, pois tiveram deficit de R$ 72 milhões.

O desempenho das contas públicas não é dado isolado. Impacta a inflação, sinaliza mal para os credores do país e para as agências de risco. Deficits crescentes despertam desconfiança do setor privado na capacidade do governo de pagar as contas no futuro e executar os programas de investimento.

Além disso, a obtenção de superavits primários tem dois propósitos: fazer caixa para pagar os juros da dívida e evitar que ela cresça. Com o mau desempenho, a dívida bruta do Brasil ; um dos principais dados de avaliação internacional da economia de um país ; cresceu, entre abril e maio, de 61,6% do Produto Interno Bruto (PIB) para 62,5%, passando a somar R$ 3,5 trilhões.

É claro que o país precisa reagir e superar a inércia e a inépcia do governo e retomar o ritmo da atividade econômica. Mas isso não será movido a marqueteiros. Essa fase já passou e conhecemos bem os resultados. A hora não é de bravatas, mas de entender por que estamos em recessão, de apurar e punir culpados por desvios, trabalhar dobrado e levar a sério a tarefa nada trivial de corrigir os rumos da economia. Só uma dúvida permanece: este governo será capaz?


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