Quem diria, Batman virou poesia

Quem diria, Batman virou poesia

Jorge Ventura e Paulo Chacon, inspirados em HQs sobre o Homem Morcego, dão um verniz poético ao herói

postado em 08/08/2015 00:00
 (foto: Reprodução/Divulgação)
(foto: Reprodução/Divulgação)




Quando a literatura e a cultura pop se fundem em versos e traços, o resultado não poderia ser outro senão um bem-sucedido livro inspirado nos personagens das HQs. Com poemas de Jorge Ventura (autor de Sock! Pow! Crash! ; 40 anos da série Batman da TV ; OperaGraphica, 2006) e arte de Paulo Chacon (Suburbanos e De olhos fechados ; Companhia de Quadrinhos Independentes, 2015), O reverso do Morcego reúne 30 poemas, todos ilustrados, dedicados especialmente aos vilões considerados insanos, cruéis e sedutores, dos mais emblemáticos, que habitam o universo Batman e são tão comuns à nossa realidade social e condição humana.

Com o objetivo de atrair tanto o público apreciador de poesia, quanto o de histórias em quadrinhos, O reverso do Morcego é uma edição independente, sob o apoio artístico da CQI e executivo de Guilherme Albuquerque, que conta com luxuosas participações: prefácio de Mario Abbade (membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro), glossário de Márcio Escoteiro (um dos maiores especialistas do personagem Batman no Brasil) e posfácio de Sílvio Ribas (jornalista e escritor, autor do Dicionário do Morcego). Lançamento previsto neste segundo semestre.

O reverso do Morcego
De Jorge Ventura e Paulo Chacon. Edição independente. 82 páginas. Preço não divulgado.


CRÍTICA
Universo pop


; Sílvio Ribas*
Especial para o Correio


O genial Manoel de Barros nos ensina que fazer poesia é como carregar água na peneira. Para ele, poema é uma criação sem nenhuma finalidade prática, mas cujo resultado tem valor incalculável. Poetizar é, enfim, fazer peraltice com as palavras ou arranjá-las de um jeito que criem um mundo particular tanto para quem as escreve quanto para quem as lê.

Em O reverso do Morcego, com textos saborosos do premiado e multifacetado artista Jorge Ventura, na companhia dos retratos feitos pelo também carioca Paulo Chacon, dono de um traço carregado de personalidade, o fazer poético descrito por Barros se revela ainda mais improvável e arrebatador, mesmo abusando de símbolos curtidos no cotidiano urbano das multidões.

Mergulhado no universo pop de Batman, o poeta verte o lirismo que extrai de sua longa trajetória de labor linguístico e de uma aloprada galeria de vilões a orbitar o herói dos quadrinhos, do cinema, da televisão e dos corações de todas as idades. Essa brincadeira séria do amigo poeta é uma iniciativa inusitada e bela, além de ser um presente para aficionados e leigos no Cavaleiro das Trevas.

Não se trata de mais um livro de poesias. Com vasto conhecimento em poesia em geral e no Homem Morcego em particular, Jorge oferece ao público um patamar extra de acepção de figuras escolhidas de modo particular, sem cotejar grau de importância ou linha cronológica.

Aqui, um mesmo poema pode também contemplar mais de uma referência. Com maestria, o autor de Sock! Pow! Crash! chega a dedicar a um arqui-inimigo do guardião de Gotham City um poema que será reconstruído, em seguida, em favor de outro(s). Lá estão os enquadramentos dos cartoons, as cores da telessérie clássica e as horas intermináveis de deleite do colecionador de gibis. Mas também está o muito que as teclas dos roteiristas e os pincéis dos desenhistas deixaram pelas beiradas.

Flano pelos 33 poemas ancorados em criaturas vis, algumas mais conhecidas que as outras. O primeiro e o segundo escalão do submundo gothaniano inspiram profundas reflexões filosóficas de Jorge. Salve. Desde o instante do Rei Relógio aos antagonismos do Duas-Caras. A dualidade humana, a fugacidade da vida e a saciedade dos versos ocupam com galhardia os espaços livres do papel.

O ideal aos leitores é adentrar as páginas dessa obra com os olhos escancarados para sorver repertórios, erguer anjos caídos e unir as mãos em aplauso. Você, tal como Batman, é o protagonista oculto, a espreitar o balé das linhas escritas e desenhadas. Confesso que tão logo soube dessa empreitada fiquei tomado pela ansiedade por conhecê-la, batmaníaco confesso que sou. Como esperado, não me decepcionei.

* Jornalista e escritor, autor do Dicionário do Morcego


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