Márcio Cotrim

Márcio Cotrim

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postado em 08/08/2015 00:00



Cobras no governo

Há pessoas que não se dão com animais. Evitam cães, desconfiam da melíflua familiaridade dos gatos, abominam ratos ; só em imaginá-los debaixo da saia . . . ;, saem correndo diante de uma barata, têm pesadelos com tubarões.
Não acharia a mínima graça em acordar de madrugada com um bicho roendo minha orelha ou lutar para matar um pernilongo que se esbalda perto de meu nariz e ainda escapa do chinelo com engenho e arte.
Boa parte da Humanidade, porém, a começar pelas crianças, adora os animais. Todas exigem dos pais um cachorrinho, que acaba virando um de seus brinquedos favoritos.

Cães e gatos são mimados em muitos países e produzem enorme faturamento no ramo de alimentos para eles. No Reino Unido, o culto ao gato é instituição nacional. Certa vez, em Londres, no cemitério reservado aos bichanos encontrei uma lápide que dizia o seguinte ;Ao adorado Jerry, que me deu muito mais alegrias que meu marido;.
E pulgas, ô bichinho danado! Em tempos idos, muito nos incomodamos em cinemas onde elas eram população permanente. Formigas, nem se fala. Aparecem do nada, em carreiras e coortes, não tomam conhecimento de nenhum obstáculo, levam de roldão plantações inteiras, sobem pelas paredes, instalam-se em insuspeitados buracos.

Agora, pior que isso, é carregar os bichos pela vida afora no próprio nome ou sobrenome, já pensou? São brasileiros com quem você pode esbarrar na rua e que andam por aí vergados pelo peso dessa provação. Já nem falo nos Coelhos, nos Baratas e nos Lobos, famílias conhecidas, algumas até de projeção social. Refiro-me a nomes constrangedores. Vamos a alguns deles.
Que tal William Marimbondo Vinagre, Carmem de Jesus Mula, Natale Burro, Rejane Rola, Luiz Cachorro Branco e Edson Bompeixe?



E que dizer dos Veados do Mato Grosso? Não ria não, é gente tradicional daquelas bandas. Em círculo familiar já tão curioso, um de seus membros, porém, causa justo assombro quando se apresenta: ; Meu nome é Antônio Veado Prematuro.
Outra família com um nominho danado inclui uma mocinha que atende pelo gentil nome de Raulina Cobras Vivas! Xô!

Falar em cobras é lembrar o caso da cascavel e seus filhotes que um dia foram vistos no forro do quarto andar do Ministério da Justiça por um empregado que fazia a limpeza dos dutos do ar condicionado.
O Corpo de Bombeiros foi mobilizado, abriram-se rombos no teto, soldados do fogo se embarafustaram em busca da ofídia e sua família e nada encontraram. Aí foi que o pânico aumentou mesmo, sobretudo das funcionárias, que se declararam em estado de choque e impossibilitadas de trabalhar!
; Imagine se estou atendendo ao telefone e, de repente, a cascavel desce do teto e se enrosca no meu pescoço? Deus me livre, ;sconjuro!
O próprio ministro também deve ter cultivado suas justas apreensões, pois é no quarto andar que fica o seu gabinete ! No emaranhado de suposições, pode ter passado pela cabeça de Sua Excelência a insólita cena: no meio de uma audiência, subitamente aparece a cascavel para participar da conversa!

Teve gente limpando buracos de lâmpadas sem lustre, fechando frestas com esparadrapo e fita isolante. Outros lacraram os espaços vazios com gaze. Os corredores do ministério ganharam o aspecto de uma enfermaria de hospital, todo mundo atarantado, olhares de bois atônitos pela iminência do cutelo e de que, de um momento para o outro alguém que tivesse de desvencilhar-se do réptil que desabava do teto!
Os mais veteranos acusaram os índios, que na época haviam feito um protesto contra a FUNAI, dependência do ministério. Soltaram cascavéis nos jardins do palácio e elas subiram pressurosas, atingiram o quarto andar e lá se alojaram. Houve até quem chegou a pensar que o chocalho da cobra teria sido ouvido à noite.

Por isso, trabalhar ali passou a ser atividade de risco. Imagine você que alguns servidores pensaram em revindicar adicional de periculosidade! O expediente diário, tão tranquilo e insosso, tornou-se uma jornada de suspense hitchcokiano, cada palavra falada mais alto espalhava correria.
E não faltou o engraçadinho de sempre que, com preguiça de trabalhar numa sexta-feira, deu o clássico trote de alarme provocando imediata debandada e evacuação do edifício ; além de bendita folga remunerada . . .

"Quem não se ocupa, se preocupa"
Otto Lara Resende



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