Nas entrelinhas

Nas entrelinhas

por Ivan Iunes ivaniunes.df@dabr.com.br

postado em 24/08/2015 00:00





A escolha a oposição

Os quatro partidos de oposição formal ao governo Dilma Rousseff sentarão à mesa amanhã para tentar unificar um discurso sobre o impeachment da petista. Desde o início da espiral da crise, em fevereiro, PSDB, DEM, PPS e SDD não conseguiram adotar uma linha definida no embate contra o Planalto. A falta de unidade interna fez com que se cogitasse de tudo, mas não se defendesse nada, ao menos por consenso. Agora, com o aliado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) fragilizado e propenso a revanches, parte das bancadas dessas legendas volta à carga para que as siglas abracem o impeachment. Não será fácil dobrar os demais. O motivo é que, se há um plano para a saída da petista, não existe um esboço do que será feito depois disso.

Até aqui, a banda mais cautelosa dos quatro partidos tem evitado movimentos bruscos durante a crise debruçada em um cálculo eleitoral quase que diário sobre o espírito do eleitor. Aqueles que se manifestam nas ruas são tidos como votos garantidos para a oposição, mas não garantem sustentação popular para um novo governo, seja ele via impeachment, seja por novas eleições. Entender a intenção dos que ficam em casa tornou-se vital não apenas para 2018, mas para a estratégia atual de confronto aos petistas. Foi por entender o zeitgeist ; ou espírito do tempo ; brasileiro nos últimos 13 anos que o PT conseguiu emplacar as seguidas eleições de Lula e a de Dilma. As manifestações de 2013 e o resultado apertado de 2014 mostram uma virada brusca nos ventos da política. Mudança essa que, até aqui, nenhum partido conseguiu medir com a precisão necessária para multiplicá-la em votos. Hoje, o que se tem são os partidos, o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto desconectados das ruas, com as quais parecem nem sequer conservar o mesmo idioma.

Ao sentar para discutir a unidade no discurso de impeachment, é exatamente esse zeitgeist brasileiro que estará em avaliação. É fato que a esmagadora maioria da população não deseja mais o governo Dilma Rousseff. As pesquisas de opinião mostram isso e o estado em que se encontra a economia é combustível suficiente para alimentar essa insatisfação por um bom tempo. A oposição precisa, no entanto, apresentar uma proposta de governo, sem medo de ver a oferta rejeitada. Caso contrário, é pedir para que o eleitor embarque em uma viagem sem destino definido.

A tese das novas eleições significa atropelar o tempo ; se a base legal para o impeachment é discutível, a de um novo pleito inexiste enquanto o Tribunal Superior Eleitoral não julgar as contas de 2014. Ainda, ao contar com a boa vontade de Eduardo Cunha na votação do afastamento de Dilma, a oposição sabe que dificilmente o PMDB deixará que a Presidência saia do colo de Michel Temer. Uma vez empossado, o agora vice-presidente trabalharia por um nome da legenda ; provavelmente o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Esse cenário afastaria ainda mais a oposição do Palácio do Planalto.

A profusão de nomes eleitoralmente viáveis também dificulta a adoção de um caminho único para a oposição. Somente para citar os últimos candidatos ao Planalto, Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin têm boas perspectivas nas urnas. Até por isso, nenhum dos três reúne condições, atualmente, de unificar o discurso dos partidos contrários ao Planalto, devido ao óbvio choque de interesses. O mais provável é que Fernando Henrique Cardoso cumpra o papel de Midas e aponte qual caminho deve ser seguido pela oposição. Até aqui, o ex-presidente tem sido errático. Primeiro, teceu elogios à presidente e girou a artilharia contra o PT e contra Luiz Inácio Lula da Silva. Na semana passada, não poupou nem mesmo Dilma, pedindo à chefe do Executivo que renuncie, como ;gesto de grandeza;. Pelo andar da carruagem, a reunião de terça-feira servirá para que a banda que deseja o impeachment reforce a pressão sobre as direções das quatro legendas oposicionistas. A escolha pela remoção à força, no entanto, terá de esperar por um cenário mais bem definido, especialmente no que se refere à evolução da denúncia envolvendo Eduardo Cunha.

As manifestações de 2013 e o resultado apertado de 2014 mostram uma virada brusca nos ventos da política. Mudança essa que, até aqui, nenhum partido conseguiu medir com a precisão necessária para

multiplicá-lo em votos

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