A morte vem pelo ar

A morte vem pelo ar

Pesquisadores calculam que a poluição tira a vida de 3,3 milhões de pessoas no mundo a cada ano. O uso de combustíveis fósseis, a pecuária e as queimadas florestais estão entre as principais fontes de contaminação

Paloma Oliveto
postado em 17/09/2015 00:00
 (foto: Ahamad Masood/Reuters - 13/10/13)
(foto: Ahamad Masood/Reuters - 13/10/13)

A cada minuto, seis pessoas morrem prematuramente no mundo todo, vítimas de um agente invisível e silencioso. Não se trata de um novo micro-organismo altamente letal, mas da poluição que, por ano, provoca 3,3 milhões de óbitos. Isso é mais do que a malária e a Aids causam juntas. As previsões para o futuro tampouco são boas: por volta de 2050, o número deve subir para 6,6 milhões, alertam os autores de estudo publicado na capa da edição desta semana da revista Nature. No Brasil, a associação entre ambiente e saúde também foi destacada por um estudo da Nature Geoscience: de acordo com uma pesquisa, até 1,7 mil mortes por ano foram evitadas com a redução do desmatamento (leia mais abaixo).


Há muito se sabe que as partículas poluentes suspensas no ar estão por trás de diversas enfermidades crônicas ; além de problemas respiratórios e câncer de pulmão, a contaminação atmosférica pode levar ao desenvolvimento de doença cardiovascular, que culmina em infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Essa, contudo, é a primeira vez que se quantificam os casos de mortes diretamente associadas ao problema, a partir de fontes variadas, como indústria, tráfego, geração de energia e queima de biomassa.


Graças a um sofisticado modelo computacional que reproduz as condições atmosféricas de cada parte do globo, os cientistas chegaram a conclusões preocupantes. Em primeiro lugar no ranking dos agentes mais letais, está o resíduo da queima de carvão e lenha para geração de energia doméstica. Esse é um problema grave principalmente em países asiáticos em desenvolvimento, como China, Índia e Bangladesh, onde milhares de famílias dependem desse método rudimentar, que lança no ar fumaça altamente tóxica.


O mais surpreendente, na opinião do principal autor do estudo, Jos Lelieveld, do Instituto de Química Max Planck, foi o papel significativo da agropecuária. Em uma coletiva de imprensa organizada pela revista Nature, ele contou que não se trata apenas das partículas desprendidas pelos fertilizantes e agrotóxicos. ;Um quinto de todas as mortes globais resultam das emissões de amônia do gado, das aves e dos porcos criados para abate;, indicou. Esse gás, composto por nitrogênio e oxigênio, reage com a fumaça tóxica da indústria e dos veículos e, assim, produz as partículas microscópicas que, inaladas, provocam doenças potencialmente letais.


A emissão de amônia figura como principal causa de morte prematura no Japão, no leste dos Estados Unidos e na Europa, regiões onde a trinca agricultura, produção industrial e circulação de automóveis é predominante. Nos países mais ricos, a poluição proveniente do tráfego continua um forte fator associado à mortalidade: um quinto dos óbitos são provocados pela fumaça dos veículos.


Lelieveld lembra que, apesar da adoção de tecnologias limpas na produção e no abastecimento de carros, isso não tem sido suficiente para diminuir o impacto dos combustíveis fósseis, que ainda predominam. Uma preocupação, lembra o pesquisador, é que o número de mortes deve aumentar, pois, nos países em desenvolvimento, as frotas estão cada vez mais robustas. Não foram apresentados dados em separado sobre o Brasil, que está fora da lista das 15 nações com os maiores números de óbitos (veja quadro), mas Lelieveld destaca que, no Hemisfério Sul, a queima de biomassa é a principal categoria e, no país, contribui com cerca de 70% das mortes prematuras provocadas por poluição.

Controle necessário
Para Bin Jalaludin, professor da Faculdade de Saúde Pública e Medicina Comunitária da Universidade de New South Wales, que não participou do estudo, a pesquisa ressalta a necessidade de políticas públicas direcionadas às especificidades de cada região. ;Essa é mais uma demonstração da necessidade de adoção de políticas e legislação que ajudem a minimizar a poluição do ar de todas as fontes. Diferentes abordagens serão necessárias para atacar as fontes de partículas finas em diferentes regiões do mundo. Mesmo em países com boa qualidade do ar, como é o caso do meu, a Austrália, a redução da poluição por partículas gera um ganho à saúde;, observa.


;Pela primeira vez, esse estudo determina como diferentes fontes poluentes contribuem para mortes prematuras pela exposição do ar. É interessante notar que ele identifica o uso de energia residencial como principal fonte de poluição atmosférica externa em muitos países, mesmo nos que estão se industrializando rapidamente, como a China;, avalia Oliver Wild, cientista atmosférico da Universidade de Lancaster. ;A lição é que precisamos de mecanismos de controle da qualidade do ar para evitar essas mortes prematuras, particularmente nas partes extremamente povoadas da Ásia;, lembra.


Na entrevista coletiva, Jos Lelieveld revelou que as principais vítimas são as crianças. ;Em especial, aquelas com menos de 5 anos. ;Mas essas mortes ocorrem apenas em países em desenvolvimento onde a nutrição é pobre. Crianças expostas à poluição atmosférica que estão desnutridas ou com carências nutricionais tornam-se mais vulneráveis;, afirmou, ressaltando a fragilidade das nações mais pobres diante da ameaça da contaminação do ar.


Tendo como base as projeções de aumento dos níveis da poluição do ar, o estudo detectou que, em 2050, as mortes prematuras vão dobrar. ;Essa projeção deveria soar os alarmes das agências de saúde pública por todo o mundo. Isso também levanta a questão sobre qual tipo de fonte deveria ser reduzida em cada região;, escreveu, para a Nature, Michael Jarret, pesquisador do Departamento de Saúde Ambiental da Universidade da Califórnia em Los Angeles. ;Para muitas partes do mundo, mais pesquisa será necessária se quisermos entender os impactos das práticas agrícolas na poluição do ar e na mortalidade e, especialmente, para determinar a toxidade do nitrato de amônia e do sulfato que emana dessa fonte;, observou.

Mais afetados

Veja o total de mortes prematuras
relacionadas à poluição do ar
registradas em 2010 nas nações que mais sofrem com o problema

China 1,3 milhão
Índia 645 mil
Paquistão 111 mil
Bangladesh 92 mil
Nigéria 89 mil
Rússia 67 mil
EUA &

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