Na mira da polícia

Na mira da polícia

Viúva de Omar Mateen, atirador que matou 49 pessoas em boate gay de Orlando, pode ser indiciada como cúmplice do massacre. FBI investiga se Noor Salman conhecia os planos do atentado. Barack Obama e o vice, Joe Biden, visitam a Flórida hoje

Rodrigo Craveiro
postado em 16/06/2016 00:00
 (foto: Joe Raedle/AFP)
(foto: Joe Raedle/AFP)



O destino de Noor Zahi Salman, viúva do atirador que matou 49 pessoas na boate LGBT Pulse, em Orlando, está nas mãos da polícia e de um grande júri federal. Segundo a TV CNN, a mulher revelou aos investigadores do FBI, a polícia federal dos Estados Unidos, que Omar Mateen lhe contou sobre o interesse de cometer um ataque jihadista, mas negou ter conhecimento sobre os planos do marido. Por sua vez, uma fonte do FBI admitiu ao site FoxNews.com que os promotores pretendem pedir à Corte que aceite o eventual indiciamento de Noor como adicional de 49 acusações de assassinato e a 53 de tentativa de homicídio.
Ela também pode ser acusada por não ter alertado as autoridades sobre a iminência de um atentado terrorista. Noor afirmou ao FBI que tentou demover o marido da ideia de um atentado. Também disse tê-lo acompanhado a uma loja de munições, no início do mês, e admitiu que o levou até a Pulse em pelo menos uma ocasião, para uma espécie de ;reconhecimento; do alvo. O jornal The Washington Post, ao citar uma fonte próxima à investigação, divulgou que o casal vigiou a boate entre 5 e 9 de junho.

Um dos sobreviventes da Pulse, o contador John Eden também defendeu a punição a Noor. ;Ela tem de ser indiciada e julgada, caso soubesse sobre o atentado. Isso faria dela um acessório para as mortes de 49 pessoas;, afirmou ao Correio. ;Se o que a mídia diz é verdade, sobre o fato de ela saber do ataque e de tê-lo levado para analisar alvos, então isso a torna cúmplice.; Por sua vez, o ex-agente do FBI Clint Van Zandt vê um grande dilema ético e jurídico para condenar Noor. ;Ela deveria ser indiciada, se não há ninguém, à exceção de Noor, que pode testemunhar contra ela? Sem a confirmação do que ela diz, pode ser acusada apenas com base em suas próprias palavras;, questiona à reportagem.

O prefeito de Orlando, Buddy Dyer, contou à imprensa que Mateen ameaçou explodir a Pulse, com cerca de 30 pessoas dentro, durante as conversas que manteve por telefone com a polícia. O assassino disse que tinha amarrado explosivos a quatro reféns e os posicionado em pontos estratégicos do prédio. Em desespero, os reféns fizeram ligações e enviaram mensagens de texto ao 911, serviço de emergência da polícia, citando algo sobre bombas. ;Nós tínhamos muita informação de dentro (da boate) e elas, independentemente, diziam que o atirador estava a ponto de colocar um colete de explosivos;, declarou Dyer.
Os agentes também apuram se Noor Salman sofreu agressões físicas nas mãos de Mateen. Sitora Ali YuSufi, ex-mulher do atirador e atualmente noiva de um brasileiro, informou à polícia ter sofrido abusos por parte do ex-marido. Em entrevista ao Correio, o carioca Marcio Dias contou que a noiva não sabia que Mateen era gay. ;Ela o achava meio narcisista, porque ficava se olhando no espelho por muito tempo. Também gostava de tirar fotos de si mesmo e tinha uma coleção de colônias;, relatou Dias. ;Ela foi alvo de violência nas mãos dele. Fora isso, ele parecia um cara normal.;

Solidariedade
Em um gesto de solidariedade e de união contra a homofobia e a islamofobia, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o vice, Joe Biden, visitarão hoje Orlando. ;Eles se reunirão com familiares das vítimas do ataque e se mostrarão solidários com a comunidade;, anunciou a Casa Branca, por meio de um comunicado. Não foram divulgados detalhes da visita. As autoridades alertaram ontem que ameaças contra a comunidade muçulmana nos EUA não serão toleradas. ;As violações dos direitos civis são uma prioridade para o FBI;, admitiu Ron Hopper, agente especial da corporação. ;Investigamos os incidentes contra pessoas (;), principalmente em razão de sua raça, religião e orientação sexual;, sublinhou. As preocupações recaem principalmente sobre o Centro Islâmico de Fort Pierce, na Flórida, que era frequentado por Mateen. Ontem, um jornalista da agência France-Presse contou ter visto alguém gritar ;Morram, sacos de m...!”.

A carnificina em Orlando tornou-se tema da campanha presidencial norte-americana. O magnata e candidato virtual do Partido Republicano, Donald Trump, defendeu ontem a proibição da venda de armas para pessoas colocadas em listas de vigilância antiterrorismo. Por meio das redes sociais, Trump disse que iria se ;reunir com líderes do lobby das armas (NRA), que apoiam a minha candidatura, sobre uma proibição às pessoas que estão na lista de vigilância antiterrorismo ou uma lista de exclusão de voo de comprar armas de fogo;.


Discreta ao extremo



Filha de palestinos, Noor Zahi Salman (E), 30 anos, cresceu no pequeno subúrbio de Rodeo, a 40km de San Francisco (Califórnia). O primeiro casamento, arranjado na Cisjordânia, sofreu um desgaste e ela acabou se divorciando, por diferenças culturais. Noor e o primeiro marido, também palestino, moraram por um tempo em Chicago. Foi por meio da internet que Noor conheceu Omar Mateen (D), o atirador que invadiu a boate Pulse, em Orlando, e executou, com tiros de fuzil
AR-15, 49 pessoas, ferindo 53. Na época, Mateen trabalhava como segurança e era muçulmano devoto. Segundo registros públicos, os dois se casaram em 20 de setembro de 2011 e têm um filho de 3 anos (C). Noor era extremamente discreta. Alguns vizinhos sequer notavam a presença da mulher.


Um príncipe na revista gay



O príncipe William tornou-se o primeiro membro da família real britânica a aparecer na capa de uma revista gay ; Attitude, a mais popular no Reino Unido. ;É a primeira vez que um membro da família real é retratado na capa de uma publicação gay;, comemorou a Attitude. A capa aparece dias depois do massacre em Orlando, que provocou grande solidariedade para com a comunidade gay. Em 12 de maio passado, William convidou membros da comunidade LGBT ao Palácio de Kensington para que falassem sobre preconceito. Após o encontro, posou para a capa.


Três perguntas para

Subhi Nahas, refugiado sírio em San Francisco (Estados Unidos) e ativista gay



Na condição de alguém que
se assumiu gay, que tipo

de perseguições o senhor sofreu por parte do Estado Islâmico?
Na Síria, os gays sofrem por conta da homofobia patrocinada pelo Estado. O artigo 520 do Código Penal estabelece pena de até 3 anos de prisão por qualquer ato sexual contrário à natureza. Em 2012, a base da Constituição foi mudada por Bashar Al-Assad para a sharia (lei islâmica). A comunidade LGBT na Síria foi sistematicamente alvejada pela ;Polícia Secreta; e marginalizada pela comunidade. Eu não fui diretamente ameaçado pelo Estado Islâmico (EI). No entanto, fui forçado a abandonar a Síria por ser gay e pela ascensão dos extremist

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