Mares revoltos

Mares revoltos

rodrigo craveiro rodrigocraveiro.df@dabr.com.br
postado em 29/06/2016 00:00
;Conhece-se o marinheiro no meio da tempestade.; O famoso provérbio britânico caiu como uma luva para o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron. Ao exigir concessões da União Europeia (UE), ele ameaçou realizar um referendo sobre a permanência do bloco, na certeza de que Bruxelas capitularia ante suas demandas. Mas a chantagem foi mal calculada. Cameron tinha a convicção de que os britânicos jamais aceitariam abandonar a UE e abrir mão da mobilidade no espaço Schengen ; a livre circulação entre as fronteiras ;, dos pactos comerciais com os 27 Estados-membros e da segurança de fazer parte de uma organização sólida. Não imaginava o efeito cascata nos mercados mundiais, derrubando bolsas de valores e levando a libra esterlina à maior desvalorização em 31 anos.

A tempestade foi intensa demais. Assim que o Brexit ; a opção pela saída da União Europeia ; venceu o referendo da última quinta-feira, ficou claro o contundente fracasso político do conservador Cameron. Quase de forma concomitante ao anúncio da renúncia do premiê, a oposição britânica, defensora do Brexit, se fragmentou. Nem mesmo os trabalhistas tinham proposta sólida para o Reino Unido após abandonarem o bloco. Cameron não teve tempo nem motivo, para comemorar o racha na oposição. Desmoralizado e forçado a pedir demissão, percebeu que a aventura política produziu fissuras dentro do próprio partido.

Não foi apenas o marinheiro que se revelou. Assim que a cortina do referendo subiu, a sociedade britânica se mostrou xenófoba. Por trás da votação da última quinta-feira, estava latente o medo de uma invasão de imigrantes. A onda de refugiados batia às portas do Canal da Mancha, e milhares aguardavam em Calais, na França, a chance de invadir o túnel do Eurostar. A força da libra esterlina era os principal chamariz dos estrangeiros.

O Reino Unido vai precisar se reinventar para seguir sozinho, após divórcio nada amigável. Elizabeth II corre o risco de ver o reinado evaporar pelos dedos, à medida que desejos secessionistas começam a fervilhar na Escócia, ávida por permanecer na União Europeia. O partido Sinn Fein, da Irlanda do Norte, defendeu uma consulta popular para a unificação com a Irlanda, formando uma república única. O Brexit ecoou forte no restante da UE e despertou sentimentos de independência de partidos direitistas em países como Holanda, Itália e França. Tudo por culpa de Cameron.

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