Plano Piloto vulnerável

Plano Piloto vulnerável

Balanço da criminalidade no primeiro semestre mostra que pelo menos cinco crimes graves registraram alta na área central. Roubos a pedestres e em coletivos assustam a população

» ADRIANA BERNARDES » PEDRO AZEVEDO SILVA
postado em 07/10/2016 00:00
 (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)

Quem vive ou trabalha no Plano Piloto está mais exposto à ação dos criminosos neste ano. Quatro dos nove crimes contra a vida ou com uso de violência monitorados pela Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social registraram aumento. As tentativas de homicídio e os roubos a pedestres, em coletivo e em residências subiram mais de 30%. Os assassinatos e os assaltos em comércio caíram 52,6% e 16%, respectivamente, na comparação do primeiro semestre deste ano com o mesmo período de 2016 (veja Insegurança).

Em um dos casos mais recentes de violência na região, um jovem de 29 anos foi esfaqueado no Parque da Cidade por volta das 13h da última terça-feira. Em agosto, Katyane Campos de Gois, 26, foi morta, e o corpo dela, deixado em frente ao Teatro Nacional. Em março, cinco criminosos fizeram um arrastão em um ponto de ônibus da 207 Norte, fugiram em um Gol e, horas depois, sequestraram dois homens, de 29 e 30 anos, na comercial da 116 Norte.


Também chama a atenção os roubos a pedestres nos arredores da Rodoviária do Plano Piloto. A gari Iara Teixeira, 38, foi assaltada três vezes em cinco anos. Na última ocorrência, há um mês, ela vinha do Itapoã ; onde também sofreu assalto ;quando foi rendida por dois bandidos no terminal. ;Um colocou a arma na minha cabeça, e roubaram o celular. Sempre tive medo na Rodoviária, tem muito morador de rua e mendigo;, diz a moradora de Ceilândia.

O presidente do Conselho Comunitário da Asa Sul, José Daldegan, acredita que o aumento da criminalidade sofreu influência de três fatores: a transferência de policiais militares da Asa Sul para outras regiões; a revitalização do Setor Comercial Sul; e a desocupação do Torre Palace, na Asa Norte. ;Esses locais eram ocupados por usuários de crack, e eles foram expulsos de lá. Com isso, houve o aumento de ocorrências na Asa Sul, como roubo em automóveis e em pontos de ônibus;, menciona.

Na Asa Norte, a preocupação é com a grande quantidade de pessoas em situação de rua. ;Muitos estão viciados em crack ou são dependentes de álcool. São comuns as brigas entre eles. Os roubos de celular e em veículos são muito frequentes também;, relata a presidente do Conselho Comunitário da Asa Norte, Maria das Graças Borges Moreira. Tanto Maria das Graças quanto José Daldegan defendem melhorias na iluminação pública. E uma política voltada para o atendimento das famílias em situação de rua.

A estudante Fernanda Oliveira, 17, teve o celular roubado na parada de ônibus da 712 Norte. ;Acho que o Plano Piloto está com o mesmo nível de insegurança de outros locais, como Planaltina e Taguatinga;, compara a moradora do Setor de Oficinas Norte.

A secretária de Segurança Pública e da Paz Social, Márcia de Alencar Araújo, explica que a população do Plano Piloto começa a sofrer mais intensamente o processo de inchaço populacional e das desigualdades sociais. Por ano, são 70 mil novos moradores. Além disso, para ela, em parte, a sensação de insegurança é provocada pelo aumento dos casos de delitos contra o patrimônio. No DF, o crescimento foi de 19%. No Plano Piloto, chegou a 22,6%. ;O roubo é o crime que mais provoca o aumento da sensação de insegurança e o que mais impacta na mudança de comportamento do cidadão. Mas é preciso diferenciar a percepção de segurança com o ambiente em que efetivamente os crimes acontecem;, pontua.

Para exemplificar, Márcia de Alencar mostra dois mapas do Plano Piloto do ano passado. Num deles, o Setor Comercial Sul aparece em destaque como a área com maior incidência de crimes contra o patrimônio. No outro, o destaque é para a 912 Norte, região com a maior sensação de insegurança. ;Estamos trabalhando com foco nas áreas críticas, em parceria com a administração regional e as forças de segurança. Cada qual tem a sua meta e resultado. Vamos nos reunir este mês para avaliar os resultados. Também temos protocolos unificados com o governo de Goiás para fazer um cinturão de proteção e evitar que criminosos daqui migrem para lá e vice-versa;, detalha.

O trabalho integrado no SCS no ano passado, com legalização de ambulantes, acolhimento dos moradores em situação de rua, sinalização e atividade cultural, é apontado por Márcia de Alencar como fundamental para a redução de 52,6% da taxa de homicídios no Plano Piloto. A experiência será estendida a outras regiões. O maior desafio, na visão da secretária de Segurança, é a proteção do jovem. ;O que vamos fazer com os nossos jovens? Temos um trabalho voltado para os reincidentes. Mas precisamos evitar que entrem para a criminalidade;, explica.


Insegurança

Confira balanço da Secretaria de Segurança Pública e
da Paz Social no Plano Piloto:

Tipo de crime 2015* 2016* Variação

Em alta

Tentativa de homicídio 19 22 15,7%
Tentativa de latrocínio - 4 -
Roubos a pedestre 1.332 1.738 30,4%
Roubo em coletivo 23 31 34,7%
Roubo em residência 6 7 16,6%

Em queda

Homicídio 19 9 -52,6%
Estupro 23 20 -13%
Roubo de veículo 188

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