Cultura machista estimula a covardia

Cultura machista estimula a covardia

Pesquisa divulgada ontem pela Universidade Federal do Ceará mostra que três em cada dez mulheres nordestinas já sofreram, ao menos uma vez, violência doméstica. As capitais onde houve mais agressões foram Salvador, Natal e Fortaleza. Nem as grávidas são poupadas

» Patrícia Rodrigues Especial para o Correio
postado em 10/12/2016 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press
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(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press )


Três em cada 10 mulheres nordestinas sofreram violência doméstica ao menos uma vez, aponta estudo da Universidade Federal do Ceará (UFC). A pesquisa, divulgada ontem, ouviu dez mil mulheres com faixa etária entre 15 e 49 anos nos nove estados da região. As capitais com mais mulheres agredidas foram Salvador, Natal e Fortaleza. ;O diagnóstico foi realizado pela ausência de base de dados no Brasil. Alguns resultados eram esperados e outros surpreenderam;, conta o pesquisador da UFC José Raimundo Carvalho.

Um dos pontos mais chocantes, de acordo com o especialista, é a agressão a grávidas: 6,2% das mulheres sofreram agressão física durante alguma das gestações ao longo da vida, seja por parte do parceiro atual ou do ex-parceiro (o mais recente). Natal (RN) apresentou a maior prevalência de violência doméstica na gravidez, aproximadamente 12%, enquanto Aracaju obteve 4,3%. ;Esse é um dado vergonhoso, agravante;, revoltou-se o professor.

O estudo, que foi realizado em parceria com o Instituto Maria da Penha e financiado pela Secretaria de Políticas para Mulheres, do governo federal, mostra que 27% das mulheres sofreram algum episódio de violência emocional (insultos, humilhações ou ameaças), 17,2%, violência física, e 7,13%, sexual. Quando questionadas sobre esses atos de violência nos últimos 12 meses, as porcentagens são 11,92%, 5 38% e 2,42%, respectivamente. O resultado alarmante não surpreende a especialistas. ;Historicamente, o nordeste é mais machista. O machismo aqui é mais forte;, explicou a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Rita de Lourdes Lima.

A estudiosa acredita que a única forma de acabar com a cultura do machismo é por meio de campanhas de conscientização. Um fato que chama a atenção é que os dados foram divulgados no dia anterior ao fim da campanha mundial 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres. A campanha ocorre em cerca de 160 países há mais de 25 anos, mas mesmo assim não atinge todas as pessoas. ;As campanhas são importantes, mas, às vezes, não chega à população e, principalmente, não atinge os homens;, disse.

Insegurança

A necessidade de investimento em campanhas e políticas públicas é unânime entre os especialistas. Para a professora Míriam de Oliveira Inácio, da UFRN, a cultura patriarcal é reproduzida não só na família, mas em escolas, igrejas, e no poder judiciário e Estado. ;A ideia de que as mulheres são propriedades dos homens é algo que se vai internalizando desde a infância;, explicou. A mulher convive com o a violência dentro de casa desde que é criança. O estudo mostra que aproximadamente 1 em cada 5 mulheres (20,1%) soube de agressões físicas sofridas por suas respectivas mães. ;É quase uma naturalização. As mulheres viram as mães apanhando e os homens viram os pais agredindo;, lamentou Míriam.

A pesquisa mostra, ainda, que essas mulheres vivem com a sensação de insegurança. Muitas delas acreditam que podem ser violentadas, inclusive, sexualmente, nos próximos meses. Com a divulgação do estudo e ampliação do banco de dados sobre o assunto, o professor José Raimundo Carvalho espera que os gestores se debrucem sobre o conteúdo para começar a mudar esse quadro, propondo políticas públicas.

;O Nordeste tem esse resultado por causa da cultura machista, desigualdade socioeconômica e falta de educação de gênero;, justificou. A professora Míriam Inácio acredita que, para mudar esse quadro, é necessário que se tenha educação de gênero desde o ensino básico de educação até a universidade. ;Precisamos de valores que apontem para a igualdade;. O autor sugere que se desenvolva, implemente, monitore e avalie de maneira rigorosa ações e programas destinados a prevenção e tratamento da violência doméstica baseados em evidência científica.
Pesquisa
Principais resultados

; 3 em cada 10 mulheres (27; 04%) nordestinas sofreram pelo menos um epis ódio de violência dom estica ao longo da vida

; 1 em cada 10 mulheres (11; 92%) nordestinas sofreu pelo menos um episódio de violência dom estica nos últimos 12 meses.

; Em termos de violência física ao longo da vida, Salvador (BA), Natal (RN) e Fortaleza (CE) são, nessa ordem, as três cidades mais violentas da região.

; Parceiros atuais e ex-parceiros mais recentes são respons áveis pela quase totalidade da violência dom estica perpetrada contra as mulheres. Em termos de violência f ísica e sexual, ex-parceiros chegam a suplantar os parceiros atuais.

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