Motos causam mais mortes que carros

Motos causam mais mortes que carros

Além de ser uma opção de transporte, a moto se tornou uma fonte de renda. Tal realidade impulsionou a frota e também o número de acidentes. Dos 45 mil óbitos no trânsito em um ano, 12 mil trafegavam sobre duas rodas e 10 mil, em carros

Adriana Bernardes
postado em 19/12/2016 00:00
 (foto: Luís Nova/Esp. CB/D.A Press
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(foto: Luís Nova/Esp. CB/D.A Press )

O medo de perder a vida no asfalto é uma constante na vida do motoboy Marcos Tadeu Botelho de Souza, 34 anos. Diariamente ele precisa superar os temores, subir na moto e garantir o sustento da família. Durante cinco anos, a entrega de pizza apenas incrementava os rendimentos. Mas, desde que perdeu o emprego de auxiliar de serviços gerais, há seis meses, o bico sobre as duas rodas virou a atividade principal e única fonte de salário.

Seja qual for a razão, a opção pelo deslocamento sobre duas rodas já mata mais no Brasil do que os automóveis. Mesmo com uma frota duas vezes menor, das 45 mil mortes anuais no país, 12 mil são de motociclistas e 10 mil, de ocupantes de automóveis. Na segunda reportagem da série Motociclistas: jovens e condenados à morte, o Correio mostra os motivos do crescimento da frota e qual a parcela de responsabilidade do governo, seja pelo incentivo ao transporte individual, seja pela falta de investimento no transporte público.

No caso de Marcos, dois fatores pesaram na compra: a péssima oferta de ônibus e metrô, além da necessidade de obter a renda. Morador de Samambaia, ele reconhece na pele os riscos nas ruas. ;Somente este mês, caí duas vezes. Por sorte, tive apenas arranhões. Mas, como não tenho instrução, só o segundo grau, é o que dá para fazer hoje;, lamenta. A história de Marcos coincide com a de muitos usuários de motos. E o medo dele se justifica.

No Distrito Federal, as vítimas mais recorrentes são aquelas que usam a moto como meio de transporte ou para o lazer. Os motociclistas profissionais representam 14,6% dos mortos. De modo geral, 86% têm o ensino fundamental ou o médio. ;Eles compraram moto para alguma atividade de trabalho ou para fugir do transporte público, que encareceu muito nos últimos anos e é ruim;, detalha Carlos Henrique Carvalho, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Nos últimos quatro anos ; 2016 segue a mesma tendência ;, os motociclistas ocuparam o segundo lugar entre os mortos nas vias de Brasília. Perdem apenas para os pedestres, a parcela mais vulnerável dos integrantes do sistema viário. O dado mais recente do Departamento de Trânsito (Detran) sobre acidentes com motos revela que 80% dos óbitos em vias urbanas foram de motociclistas e 15%, de pedestres. Metade das vítimas tinha, no máximo, 31 anos (veja arte).


;Saio de casa e beijo meus filhos como se fosse a última vez. Todos os dias, tenho medo de morrer no trânsito e
de não voltar. Ser motoboy é uma profissão perigosa. Mas é o que posso fazer hoje;

Marcos Tadeu Botelho de Souza, motoboy

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