A nova Terra está no céu!

A nova Terra está no céu!

Cientistas da Nasa descobrem um sistema solar formado por planetas com tamanho, composição e temperatura parecidos com os do nosso. Três têm condições de abrigar vida e há a possibilidade de todos serem explorados daqui por supertelescópios

Paloma Oliveto
postado em 23/02/2017 00:00
 (foto: NASA/JPL-Caltech/Divulgação)
(foto: NASA/JPL-Caltech/Divulgação)



Uma das perguntas que o homem mais se faz desde que olhou pela primeira vez para o céu pode estar perto de ser revelada. Astrônomos anunciaram ontem a descoberta de Trappist-1, um sistema solar composto por sete planetas que orbitam uma estrela anã a 40 anos-luz da Terra, uma distância que, em termos cósmicos, é quase um logo ali. Três deles estão na zona habitável, ou seja, a que tem condições atmosféricas e climáticas para abrigar vida, com temperaturas que oscilam de 0;C a 100;C. Mais que isso: pelas características desses novos mundos, os pesquisadores acreditam ser muito provável que o trio, batizado por enquanto de e, f e g, seja banhado por oceanos líquidos. ;Não é mais uma questão de perguntar ;se;, mas ;quando;;, disse o administrador associado da Agência Espacial norte-americana, a Nasa, Thomas Zurbuchen, referindo-se à dúvida sobre vida extraterrestre.

Desde 1995, quando se anunciou a descoberta do primeiro planeta fora do Sistema Solar que também orbita uma estrela, já foram identificados milhares de outros do tipo. A grande comoção provocada, agora, por esses novos sete mundos é que, até hoje, nenhum objeto detectado foi tão promissor quanto à existência de algum tipo de vida. Não à toa, o sistema já está sendo chamado de ;Santo Graal; da astronomia. Uma série de características contribui para isso: os planetas têm tamanho, composição e temperatura semelhantes às da Terra, recebem energia necessária para permitir o florescimento da vida, são muitos e, o melhor, estão suficientemente próximos para serem explorados por telescópios de solo e espaciais. Uma viagem para lá, porém, ainda seria impossível.

;Encontrar múltiplos planetas na zona habitável de sua estrela hospedeira é uma grande descoberta porque significa que pode haver ainda mais planetas potencialmente habitáveis por estrela do que pensávamos. E encontrar mais planetas rochosos (como a Terra) nessa zona definitivamente aumenta nossas probabilidades de encontrar vida;, avalia Lisa Kaltenegger, uma das maiores especialistas mundiais em exoplanetas e diretora do Instituto Carl Sagan, da Universidade de Cornell. ;Trappist-1, agora, detém o recorde de mais planetas rochosos na zona habitável ; nosso Sistema Solar tem apenas dois, Terra e Marte. A vida é definitivamente possível nesses mundos, mas pode parecer diferente porque, aparentemente, há um fluxo muito grande de radiação ultravioleta na superfície desses planetas;, palpita Kaltenegger, que não participou do estudo anunciado ontem.

A especialista, porém, é autora de um artigo que deverá ser publicado em breve no boletim Monthly Notices of the Royal Society, no qual avalia o tipo de vida possível em Trappist-1. ;Nós sabemos que, em um ambiente onde há fluxo ultravioleta, os planetas precisam de uma camada de ozônio que funcione como escudo para evitar que a radiação esterilize a superfície. Se os planetas ao redor da estrela não tiverem essa camada, como era a jovem Terra, a vida precisaria se abrigar no subsolo ou no oceano para sobreviver e/ou desenvolver estratégias para se proteger contra o UV, como a bioflorescência;, explica.

Em uma coletiva de imprensa transmitida ontem pela internet, Thomas Zurbuchen, da Nasa, esclareceu que ainda é impensável enviar uma sonda para avaliar, in loco, a existência de vida em algum dos exoplanetas do sistema. ;Para isso, precisaríamos que uns 100 milagres acontecessem, como desenvolver um equipamento que escapasse da radiação espacial;, reconheceu. ;Mas não quer dizer que nunca vai ocorrer. Posso dizer que já resolvemos entre cinco a 10 desses milagres. O telescópio espacial James Webb, por exemplo;, afirmou.

Esse equipamento, que será lançado no ano que vem, consegue capturar assinaturas químicas na atmosfera, que dão uma boa ideia não só da composição dos planetas, mas da existência de vida. ;Se ele indicar presença de metano ou oxigênio, por exemplo, isso pode ser um sinal da atividade de algum tipo de vida;, completou Sara Seager, professora de ciências planetárias do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT).

Configuração compacta
Foram supertelescópios que permitiram detectar a existência do Trappist-1. Vários equipamentos do tipo rastrearam o novo sistema planetário, mas a descoberta ocorreu principalmente graças ao Trappist-South, que fica em La Jolla, na Espanha, e ao Very Largy Telescope (VLT), no Chile. Além deles, o telescópio espacial da Nasa Spitzer garantiu a identificação dos sete planetas e da estrela mãe, que brilha muito pouco e só pode ser identificada por infravermelho. A anã-vermelha é pequena ;sua massa equivale a 8% da do Sol. Pouco maior do que Júpiter, ela emite uma luz bastante esmaecida, o que poderia dificultar a existência de água líquida.

;A energia de estrelas anãs como a Trappist-1 é bem mais fraca que a do nosso Sol. Para que tenha água líquida, os planetas precisam se localizar muito mais perto dela do que vemos no Sistema Solar. Mas, ainda bem, parece que essa configuração compacta é exatamente o que temos ao redor da estrela;, comemora Amaury Triaud, astrônomo da Universidade de Li;ge que participou do trabalho.

Os planetas estão tão próximos da estrela e um do outro que seria possível vê-los em tamanhos muito grandes ao se olhar para o céu, disse na coletiva da Nasa Michael Gillon, principal investigador desse estudo. O cientista acredita que a visão que um possível habitante de um dos exoplanetas teria dos vizinhos seria ;espetacular;, pois a proximidade entre eles é bem maior que a da Terra e a Lua, por exemplo. Gillon esclareceu que, por ora, não se tem notícia de que algum dos novos mundos tenha um satélite.

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