Brasília poética além do tempo

Brasília poética além do tempo

Nicolas Behr lança o livro de poesias Brasilírica e celebra 40 anos de trajetória literária com homenagem à capital

Isabella de Andrade Especial para o Correio
postado em 09/08/2017 00:00
 (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press -9 /2/17)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press -9 /2/17)

Há quatro décadas, o poeta Nicolas Behr publicava seu primeiro livro, a edição mimeografada de Iogurte com farinha, dando início a um rico caminho poético na capital. Em suas páginas, o poeta percorre a arquitetura, o céu, a gente e as questões que permeiam o crescimento e a história de Brasília. Hoje, ele lança Brasilírica e comemora seus amores e conflitos com a cidade que já foi maquete. Entre os 100 poemas de sua obra mais recente, é possível reconhecer um mosaico diverso e envolvente da personalidade, do estilo e da criação do poeta.

Para ocupar as páginas de Brasilírica, Nicolas mesclou seus clássicos pessoais e formou um grande caleidoscópio de diferentes possibilidades poéticas, ainda que cada verso guarde as características do estilo que construiu nas últimas décadas. ;Eu tentei juntar os poemas mais significativos da maneira mais abrangente possível, peguei um pouco de cada livro que já publiquei. É um grande épico fragmentado;, conta o autor.

Para ele, o livro impresso ainda guarda grande significado e a publicação carrega a possibilidade de ser levada para a eternidade. ;Também estou construindo essa relação com as redes, mas na tela tudo pode se perder e o livro não pode ser deletado;, diz. O poeta, que teve um passado rural, não tem grandes pretensões tecnológicas, mas acredita que o papel impresso, com sua característica tátil e sensorial, se complementa com as possibilidades de divulgação da internet. Além de falar sobre a cidade planejada, o autor investe ainda em contar histórias de sua infância, criações eróticas, pensamentos sobre a existência. ;Não quero me prender a um só tema;.

Apesar de ter preferência pela inspiração poética que surge a partir de Brasília e tratar da capital em grande parte de seus poemas, Nicolas investe em outros temas para não tornar restrita sua própria produção. ;A cidade me provoca e me instiga, por isso me inspiro nela. Meus poemas são como um diálogo com Brasília, com essa cidade que, quando cheguei, colocou-me o enigma: decifra-me ou te devoro;, revela o poeta que, ao chegar à capital, rebelou-se contra ao modelo de setorização da cidade por achá-lo autoritário. Vindo de Cuiabá, cidade de crescimento orgânico e sem planejamento, Nicolas estranhou a organização extrema da capital, achou-a agressiva. ;Meu conflito com a cidade hoje está menor, mas ainda existe, isso me alimenta. O dia em que eu fizer totalmente as pazes com Brasília, a poesia acabou;, declara.

Brasília pode ainda ser considerada como uma folha em branco, já que, em comparação com outras regiões mais antigas, pouco se escreveu sobre a cidade planejada. Sendo assim, apesar de escrever há tantos anos sobre o tema, Nicolas guarda mais três livros sobre a cidade e acredita que ainda há muito o que se dizer. ;Não há limite para a criação. Eu amo Brasília, se não a amasse, ignoraria. Minha poesia é uma reação a esse grande experimento modernista;, destaca. O poeta incentiva que jovens escritores não se intimidem em escrever também sobre Brasília, já que, em cada criador, é possível notar um olhar diferente.

Os anos de escrita trouxeram um amadurecimento literário e, para o poeta, hoje é possível escrever muito menos para dizer aquilo que quer. ;Antes havia mais entulho, eu escrevia 100 páginas para tirar uma linha, hoje já vou mais no ponto, trabalho mais na cabeça antes de chegar no papel;, conta. As experiências, vivências e leituras proporcionaram a mudança literária e hoje, quando escreve, o poeta busca correr de plagiar a si mesmo, inovando sempre. O objetivo é falar de maneiras diferentes, utilizar outras palavras, ainda que o estilo se mantenha presente. O resultado do caminho poético trilhado nos últimos quarenta anos aparece em Brasilírica. O livro será lançado no Beirute, um dos bares tradicionalmente frequentados por músicos, atores, pintores e poetas que vivem e se inspiram na capital.



Brasilírica
Edição: independente; Páginas: 64; Preço: R$ 20. Lançamento do livro Brasilírica, no Bar Beirute (109 sul), a partir das 17h.

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