O mercado de trabalho para refugiados

O mercado de trabalho para refugiados

No Brasil, a maior parte deles vem do Oriente Médio e da África. Aqui, enfrentam um novo problema: inserir-se no mercado de trabalho. Mesmo os com nível superior, em geral, só conseguem atuar em vagas operacionais ou na informalidade

Robson Rodrigues*
postado em 03/09/2017 00:00
 (foto: Robson Rodrigues/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Robson Rodrigues/Esp. CB/D.A Press)

O mundo vê hoje a maior onda migratória desde a Segunda Guerra Mundial. Conhecida como Primavera Árabe, a profusão de protestos ocorridos no Oriente Médio e no norte da África em 2011 foi uma das principais razões para as migrações em massa. Na Síria, a desoladora guerra dura seis anos, o que fez com que milhões de habitantes do país buscassem refúgio, segundo levantamento de 2016 do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Essas pessoas fogem de perseguições raciais, religiosas e políticas e procuram recomeçar a vida. Muitas chegam à nova pátria qualificadas para o mercado de trabalho, mas não conseguem emprego na própria área, por motivos como a dificuldade com um novo idioma e o preconceito de empregadores. Recorrem a ocupações pouco especializadas, sujeitando-se a salários muito aquém aos das qualificações a que fazem jus.


O relatório do Acnur revela que a maior taxa (35%) de deferimentos recentes de solicitação de refúgio são concedidos a imigrantes da Síria, graças a uma resolução do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) de 2013 que flexibilizou a entrada de expatriados daquele país no Brasil. Antes era exigida comprovação de emprego fixo e de condições financeiras para permanecer aqui ; como ainda funciona para outras nações. No meio do conflito que envolve o governo autoritário de Bashar al-Assad, os revolucionários sírios e o Estado Islâmico, a população luta apenas pela sobrevivência. Resta retirar-se. O que fizeram cerca de 5 milhões de sírios. Com 2.298 reconhecidos no país, o Brasil é um dos lugares mais visados. A hospitalidade daqui agrada, mas conseguir emprego ainda é um desafio. ;Os refugiados chegam com uma bagagem muito rica. Têm condições para contribuir com a economia brasileira. Muitos empregadores desconhecem as qualificações deles, acham que são ilegais no país;, pondera Luiz Fernando Godinho, porta-voz do Acnur.
Ele acredita que é necessário se reinventar para conseguir emprego. ;Não adianta chegar com um diploma.

Muitas categorias exigem a validação da graduação ou fazer uma prova específica da categoria, como é o caso da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), por exemplo. Então eles precisam pensar em outras maneiras de gerar renda, de se inserir no mercado de trabalho.; Mjed Mofleh, 27 anos, que escapou para cá há quatro anos, se reinventou. O sírio é graduado em engenharia de redes e telecomunicação pela Changchun Universitiy (China) graças a bolsa integral de estudos, e fluente em quatro idiomas (árabe, inglês, mandarim e português). Apesar das notáveis qualificações, trabalha ajudando na cozinha do restaurante Damascus (413 Sul). Formou-se em 2013 e não pôde voltar à Síria. Lá seria convocado pelo exército imediatamente ou preso por ;não ajudar o país;. Atualmente, chega a fazer 10 horas de expediente por dia e não sobra tempo para se aprofundar no português ou validar o diploma.


;Para fazer isso, tem que ter tempo e dinheiro; e eu preciso trabalhar para conseguir comer e pagar meu aluguel;, comenta Mofleh, que mora numa quitinete na Asa Norte com a namorada. ;Gosto de estudar e de procurar algo melhor para minha vida;, conta. Ao chegar ao Brasil, sem ter a quem recorrer, pediu emprego ao dono do restaurante que frequentava. ;O Mofleh, que é engenheiro, e outro amigo meu, advogado, vieram falar comigo para trabalhar na cozinha;, lembra Ammar Nabout, 42, proprietário do Damascus. O empreendedor veio para o país em 2014 com a esposa e três filhos e montou o restaurante com muito esforço. Na Síria, também era empresário. Tinha uma loja de roupas e, com o dinheiro rendido ; e guardado ;, pôde começar o novo negócio em Brasília. Na hora de procurar um espaço, a preocupação era encontrar um em que não houvesse requisito de fiador, pois desconhecia quem pudesse afiançar a locação da loja. ;Tivemos que pesquisar muito para achar um lugar. Para morar também, a mesma coisa;, diz.

Falta abertura
;Quem recolhe mais os refugiados para trabalhar são os próprios árabes;, percebe Ana Kouzack, 49, imigrante síria, há 25 anos no Brasil, chef de cozinha na preparação de salgados da confeitaria Arab Sweets (408 sul). Economista pela Universidade Tartous, em Damasco, na cozinha do estabelecimento, ela é colega do engenheiro civil Hayan Aldarwish, 26. Ele fugiu da guerra da Síria há um ano, deixando os pais, o irmão e a irmã para trás ; o dinheiro permitia que apenas um se refugiasse. Aqui, encontrou trabalho logo que chegou. Não sobrou tempo para conseguir validar o diploma estrangeiro. ;Tenho que trabalhar muito para arrumar dinheiro e ajudar minha família lá. Deixar o emprego para estudar é complicado para mim;, lamenta, esforçando-se para pronunciar o português recém-assimilado.


;O reconhecimento de diplomas é lento e caro. Com isso, tanto os refugiados quanto o país desperdiçam esse conhecimento, essa contribuição valiosa que os refugiados poderiam oferecer ao mercado de trabalho. E eles se sentem angustiados, quando não com certa frustração, diante da limitação que encontram no Brasil;, avalia Irmã Rosita Milesi, diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH). Para a advogada e religiosa da Congregação Scalabriniana (braço da Igreja Católica voltado a imigrantes), falta sensibilidade da sociedade civil e empresarial. ;Por isso, nosso apelo é para que a sociedade, especialmente o empresariado, considere a oferta de vagas de emprego, dando oportunidade de avançar no aprendizado do idioma e na experiência profissional em nosso país;, completa.


;Se eu arrumar emprego fixo, conseguirei voltar a estudar e validar meu diploma, mas trabalhando como ambulante, andando para lá e para cá, como vou conseguir estudar? Preciso pagar aluguel e comer. É muito difícil;, queixa-se Mohamed Balde, 32, morador de Taguatinga. Ele se refugiou no Brasil há quase dois anos para escapar ;da truculência do governo da República da Guiné;, país de origem. Lá, trabalhava com promoções de venda e contabilidade, graças à graduação em recursos humanos e contabilidade pelo Institut Professionnel Moderne. Aqui, aprendeu português em aulas oferecidas pela Universidade de Brasília e começou a trabalhar como ajudante em uma empresa lavando ferragem. Mohamed conta que precisava manipular uma substância química prejudicial à saúde por um salário ínfimo e decidiu sair sete meses após. Desde então, trabalha como ambulante vendendo óculos próximo à Rodoviária do Plano Piloto, mas não deixa de tentar arrumar emprego fixo. ;Já enviei currículo para muita empresa, fiz entrevistas e

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