Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Mariana Niederauer >> mariananiederauer.df@dabr.com.br
postado em 04/12/2017 00:00
Não é corujice

Desde que comecei a escrever neste espaço, leitores incondicionais na minha família acompanham cada publicação. Alguns quase que por obrigação, porque peço a opinião deles antes de enviar o texto que será impresso no jornal no dia seguinte. Outros, mesmo sem assinarem o periódico às segundas-feiras, recorrem à banca de revistas mais próxima para adquirir o exemplar com a tão aguardada crônica.

Faz bem pouco tempo que o exercício de escrever mais preocupada com uma refinação literária do que jornalística se tornou semanal, mas, ainda assim, houve momentos em que a inspiração faltou, como relatou o mestre Severino Francisco, dia desses, ter acontecido com alguns dos grandes cronistas brasileiros.

Como nem de longe me enquadro nessa categoria ; apenas me aventuro a redigir palavras com sinceridade, esperando distrair o leitor das manchetes duras ou provocar reflexão ; o desespero é exagerado quando me vejo ;sem assunto;. Logo as coisas se resolvem, mas nem sempre o resultado final me agrada.

Um caso específico foi mais ;desesperador;. O domingo tinha sido um dia conturbado e, no fim das contas, as palavras não saíram do jeito que eu havia imaginado. Mandei para várias pessoas e os diagnósticos eram desanimadores. Confuso, chato, complexo; Reescrevi pela terceira vez, reli, e enviei, cruzando o dedos.

Na manhã seguinte, recebi a ligação da minha avó, elogiando o texto. Resisti em aceitar o cumprimento e contei sobre a insegurança do dia anterior. Mas, aí, ela garantiu: ;Não é corujice;. Alívio e, finalmente, satisfação tomaram conta de mim.

Na maturidade sem fim que alcançou ao longo dos anos, dona Elda sabe bem o valor e o peso das palavras certas ditas no momento certo, e com sinceridade. Apesar de a certidão acusar o nascimento em São Paulo, o sotaque gaúcho que resiste a décadas vividas em Brasília evidencia a terra de criação.

Sentada à mesa da cozinha em sua casa, ou em meio às receitas que inventa na hora, ela aconselha e ouve todos os membros da família. Conta, sem cerimônia, que só se tornou professora porque, à época, era a profissão que restava às mulheres na cidade em que vivia. Mas exerceu o ofício de maneira exemplar, e carrega as marcas no corpo até hoje.

Então, quando digo que ela é uma das minhas professoras na vida e exemplo a se seguir, pode ter certeza: não é corujice.

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