Pacto contra a guerra

Pacto contra a guerra

Cúpula entre as Coreias do Norte e do Sul termina com a promessa de desnuclearização da península e de tratado de paz para encerrar 65 anos de conflito. Kim Jong-un diz que vizinhos estão %u201Cligados pelo sangue%u201D. Trump, ONU e Brasil celebram progresso

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 28/04/2018 00:00
 (foto: AFP)
(foto: AFP)

Houve espaço para declarações de forte significado, abraços considerados improváveis meses atrás, anúncios históricos e até piadas. A cúpula entre o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, e o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, terminou com o sabor de recomeço, em Panmunjon, na Zona Desmilitarizada. Os líderes se comprometeram com o respeito mútuo, com a ;completa; desnuclearização da Península Coreana e com a paz. ;Não haverá mais guerra sobre a Península Coreana;, afirmou Moon, ao lado do visitante, ao anunciar as decisões da primeira reunião entre os dois países em 11 anos. Em outro momento, Kim garantiu que as Coreias ;estarão reunidas como uma só nação;. Também lembrou que os vizinhos ;estão ligados pelo sangue, como uma família, e são compatriotas que não podem viver separadamente;. Seul e Pyongyang esperam a ajuda dos EUA para declarar o fim oficial da Guerra da Coreia (1950-1953), que custou 2,5 milhões de vidas.

Em um dos trechos mais emblemáticos da Declaração de Panmunjon pela Paz, pela Prosperidade e pela Unificação da Península Coreana (veja arte), um documento de três páginas, ;as Coreias do Sul e do Norte confirmaram a meta comum de alcançar, por meio da completa desnuclearização, uma Península Coreana livre de armas nucleares;. Ambos os dirigentes concordaram que as medidas iniciadas pelo regime de Kim ; a suspensão dos testes atômicos e dos lançamentos de mísseis balísticos intercontinentais ; ;são muito significativas e cruciais para a desnuclearização da Península Coreana;.

;Os dois líderes declaram solenemente, diante dos 80 milhões de coreanos e do mundo inteiro, que não haverá mais guerra na Península Coreana e que, em consequência, uma nova era de paz começou;, acrescentou a declaração, que abordou a questão das famílias separadas pelo conflito, 65 anos atrás. Os vizinhos anunciaram que farão programas de reunião de algumas das 60 mil famílias em 15 de agosto, Dia da Libertação Nacional ; o 60; aniversário do fim do domínio do Japão imperial e a criação das Coreias independentes.

Durante banquete em sua homenagem, Kim se permitiu fazer uma piada com Moon. ;Eu não interromperei mais o seu sono de manhã cedo;, brincou, em referência aos lançamentos de mísseis. ;Nós nos despedimos das relações congeladas entre as Coreias do Norte e do Sul, que eram um pesadelo. E anunciamos o início de uma primavera quente para o mundo;, afirmou o ditador norte-coreano.

Orgulho
O otimismo de Kim e de Moon parece ter contagiado a comunidade internacional. ;Depois de um ano furioso de lançamentos de mísseis e de testes nucleares, um encontro histórico entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte está ocorrendo. Boas coisas acontecendo, mas somente o tempo dirá!”, escreveu o presidente norte-americano, Donald Trump, no Twitter, antes do encerramento da cúpula. ;A Guerra da Coreia vai acabar! Os Estados Unidos, e todo o seu grande povo, deveriam estar orgulhosos do que está ocorrendo na Coreia;, acrescentou, pouco depois.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, classificou a reunião de ;verdadeiramente histórica;. ;Muitos ficaram comovidos pelas poderosas imagens dos dois líderes, que se uniram para promover a paz e a harmonia sobre a Península Coreana;, comentou. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro considerou que a cúpula ;foi histórica, tanto pela simbologia como pelos resultados;. De acordo com o Itamaraty, a declaração ;traz compromissos que o Brasil entende fundamentais para a normalização das relações intercoreanas e para a construção da paz;. ;O Brasil saúda o conteúdo da declaração e reafirma seu compromisso com a paz, o banimento das armas nucleares e o primado da diplomacia e do direito internacional na solução de conflitos.;

Entre especialistas, o clima é de cautela. Robert Manning, do instituto Atlantic Council (Washington), disse ao Correio que o documento firmado ontem ;se assemelha a vários anteriores, mas admitiu que ;há novas condições e uma nova situação;. ;Os esforços em institucionalizar um processo de diálogo social, econômico e político entre Norte e Sul são novos e representam um teste de seriedade para ambos. Ao fim do dia, tudo dependerá da posição de Kim de desmantelar o arsenal de destruição em massa.;

Autor de North Korea House of Cards: Leadership dynamics under Kim Jong-un, Ken E.Gause concorda com a ;imensa; importância simbólica do evento. ;A declaração conjunta foi bastante abrangente e esperançosa. Mas a prova estará nos detalhes;, afirmou à reportagem. Ele explicou que Kim e Moon montaram os parâmetros estratégicos para o avanço das relações intercoreanas, ao destacarem a paz e a redução das tensões. ;Cabe aos próximos encontros explicarem como isso será feito.;



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