Brasil S/A

Brasil S/A

por Antonio Machado machado@cidadebiz.com.br
postado em 27/05/2018 00:00
O óleo dos tolos


;O petróleo é nosso;, escutam os brasileiros desde a fundação da Petrobras, urgidos por governantes e apologistas de todos os vieses ideológicos de um idílico ;Brasil potência; a acreditar que a nossa estatal seria como uma religião a exigir respeito e medo dos fiéis.

A crença vem enricando os pastores dessa seita ao longo de seus 65 anos de vida, entre altos funcionários da estatal, fornecedores, prestadores de serviços e partidos políticos, boa parte dos quais forma o grosso prontuário de crimes de corrupção apurados pela Lava-Jato, mas não os crédulos de que o petróleo seria nosso. Nunca foi.

Formalmente, o Estado, representado pelo Tesouro Nacional, é dono das reservas de petróleo e gás do país. A Petrobras só as explora, refina e distribui, repassando todo seu custo (como faria qualquer empresa privada) aos usuários dos combustíveis. Só que, em geral, as empresas não consideradas excepcionais por nenhum outro direito que não seja o da competência concorrem umas com as outras.

E a Petrobras? Foi um monopólio de direito por mais de dois terços de sua existência. Desde 2010, é um monopólio de fato, pois a nova lei do petróleo (só há pouco revista) a fez operadora única do pré-sal e a obrigou a investir ao menos 30% do custo de exploração.

Foi a versão petista do Brasil grande dos governos militares e se exauriu, ao ser convocada a também fazer magia no governo Dilma ; o antecedente hoje pouco falado no protesto dos caminhoneiros.

De um lado, premida pelo esforço gigantesco da exploração do pré-sal e, de outro, pelo longo congelamento de preço dos combustíveis imposto para segurar a inflação que ameaçava bombar na campanha de reeleição de Dilma Rousseff, a Petrobras se endividou sem poder.

Foi aí que se encalacrou. Perdeu a geração própria de caixa, que no Brasil de juros anormais costuma bancar metade do investimento, ao praticar preços gravosos vis-à-vis o seu escalafobético programa de expansão ; US$ 220,6 bilhões até 2018. Ao fim de 2014, devia US$ 120 bilhões ou R$ 331 bilhões, a maior dívida corporativa do mundo.

É essa engenharia financeira do dilmismo que Pedro Parente, atual presidente da Petrobras, vem desfazendo. Com sucesso. Mas à custa de preços alinhados ao câmbio e à cotação internacional do barril de petróleo, contrariando caminhoneiros e a maioria da sociedade.

A bronca até que demorou

Parente chegou à Petrobras com a missão de resgatar sua geração de caixa, bancar com o preço dos combustíveis o custo do investimento (que também foi enxugado) e baixar o brutal endividamento. Seria algo normal, se o atraso de preços da gasolina e do diesel herdado de Dilma não fosse enorme. Faltaram-lhe sabedoria e sensibilidade.

Os aumentos de preços passaram a ser quase diários desde 2017. Só em maio, a gasolina subiu 12 vezes e o diesel, cinco. É certo que o caixa da estatal está no bagaço, mas a solução teria de considerar a previsibilidade das atividades dependentes dos combustíveis.

Surpreende que a bronca dos transportadores autônomos (com o apoio das empresas de transporte) tenha demorado, pois entre motoristas em geral a irritação nos postos de serviços é notória e crescente.

Os liberais de tertúlias

O governo cedeu aos protestos, anunciando subvenções que sairão do orçamento fiscal, implicando cortes de gastos equivalentes ao que destinará à Petrobras para manter constante, mês a mês, o preço do diesel nas bombas. Não foi a melhor solução nem encerrou a greve.

Os caminhoneiros querem que o governo fixe preços mínimos de frete a fim de resolver outra besteira de Dilma. O BNDES havia criado uma linha de financiamento a juro subsidiado para a venda de caminhões.

Aumentou a oferta de transporte ao mesmo tempo em que a recessão desabou a demanda de carga e o preço dos fretes. Diesel, pedágios, impostos etc. para cima, frete para baixo, pronto: crise instalada.

Como o governo tenta resolver? Como sempre: o consumidor paga a conta, o Estado (ou seja, nós, outra vez) subsidia, desviando verba orçamentária, e a Petrobras preserva sua política de preços livres, satisfazendo a consciência dos liberais de tertúlias televisivas.

Petrobras, amante oculta

Enfim, a Petrobras, tal como amante oculta, sempre foi estatal no registro societário e privada nas transações com seus interessados imediatos, todos engabelando a esposa oficial (brasileiros de boa-fé), fazendo-a acreditar ser a herdeira oficial de tanta riqueza.

O protesto da vez pôs o diesel como vilão, mas o que está em cena de fato é o absoluto desconhecimento da sociedade sobre o motivo de tanta lambança que impede a prosperidade e a justiça no país.

Este governo falhou ao não saber dizer com simplicidade o caos que recebeu. Falhou ao não expor didaticamente a penúria das contas da Petrobras. E pecam todas as lideranças, sobretudo as ditas liberais ou progressistas, ao omitir a captura do Estado por oportunistas de todo tipo, como os que vivem a denunciar o assédio internacional à Petrobras, não o nacionalismo vulgar que a saqueia desde sempre.

Sugando as tetas magras

A recuperação da Petrobras é uma urgência necessária, tanto quanto a solvência do INSS e do próprio Estado nacional, mas há mais de um jeito de fazer. O jeito tecnocrático preocupa-se com a cotação da ação na bolsa, que tem seu peso, mas não é determinante, se o caixa é recomposto no mercado doméstico. O consumidor é o ator central.

Teria sido mais eficaz, para merecer o respeito da sociedade, dar publicidade aos gravames escondidos da estatal. Como a Sete Brasil, uma firma de investimentos formada em 2010 por amigos da ;casa; a fim de contratar 28 navios-sondas a estaleiros ; também criados só para atendar a encomenda ;, e depois arrendá-los à Petrobras.

}A tal Sete Brasil foi, a rigor, laranja da Petrobras, que, com seu balanço, não poderia contrair novas dívidas. O país está assim, com rolos desconhecidos pela maioria, permitindo aos demagogos venderem terrenos na Lua enquanto sugam as tetas magras do Tesouro exaurido.




;Protesto dos caminhoneiros expõe a ficção do estatismo benfeito

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação