Versão contestada

Versão contestada

Em audiência relâmpago na Justiça da Nicarágua, o ex-militar Pierson Gutiérrez confessou ter matado a brasileira Raynéia Gabrielle, mas disse que a estudante de medicina dirigia de forma suspeita. Mãe de pernambucana falou ao Correio após enterro

Rodrigo Craveiro
postado em 04/08/2018 00:00
 (foto: Marlon Costa/Futura Press/Folhapress)
(foto: Marlon Costa/Futura Press/Folhapress)

Antes que o corpo da pernambucana Raynéia Gabrielle da Costa Lima Rocha, 31 anos, baixasse à sepultura, no Cemitério Morada da Paz, no município de Paulista (a 15km de Recife), a mãe da estudante de medicina pernambucana rendeu uma última homenagem à filha, assassinada em 23 de julho, em Manágua. ;Quando o corpo dela veio, chegou com o diploma. Mandei tirar uma cópia e pedi para que a colocassem dentro do caixão. Não tive coragem de vê-la. Quero me lembrar dela como se estivesse viva;, declarou ao Correio, por telefone, a servidora pública aposentada Maria José da Costa, 55, ao citar o título de doutora e cirurgiã concedido postumamente pela Universidade Americana.

A pouco mais de 6 mil quilômetros dali, os jornais de Manágua, capital da Nicarágua, qualificavam de ;inverossímil;, ;esquisita; e ;fantasiosa; a versão dada pelo réu confesso, o ex-militar e instrutor de taekwondo Pierson Gutiérrez Solís. Durante audiência relâmpago na última quarta-feira, em pleno feriado de São Domingos (patrono de Manágua), Pierson admitiu à Justiça ter matado Raynéia, sob a justificativa de que a brasileira dirigia de ;forma errática; (veja arte). O Ministério Público acusou Pierson por homicídio e porte ilegal de arma, mas não por assassinato ; o que lhe permitirá ter pena reduzida em vários anos.

A morte de Raynéia ocorreu no contexto de uma das mais graves convulsões políticas dos últimos tempos. Na noite de quinta-feira, a Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovou a criação de um grupo especial de países dedicados a buscar soluções para pôr fim à repressão. O brasileiro Paulo Abrão, secretário executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), disse à reportagem que será preciso esperar o avanço da nova iniciativa dos países-membros da OEA. ;O diálogo não pode deixar de incluir as forças da oposição. Não pode ser seletivo. O problema está no fato de que atores da oposição estão sendo presos e criminalizados;, acrescentou.

Desde o início do conflito, em 18 de abril, houve o registro de 317 mortos, incluindo 21 policiais e 23 menores de idade. O Centro Nicaraguense de Direitos Humanos (Cenidh) anunciou mais de 400 detenções ilegais. Para Rosario Murillo, a primeira-dama que acumula o posto de vice-presidente do país, aqueles que se opõem ao marido (Daniel Ortega) ;têm a alma desgraçadamente intoxicada ou envenenada;. Ela garantiu que o país retornou à ;normalidade;. ;Sabemos que a paz representa a normalidade. Representa, para aqueles que têm a alma desgraçadamente intoxicada ou envenenada, uma amostra de como o ódio se derrota com amor;, afirmou, de acordo com o jornal Hoy. Na quinta-feira, Ortega também garantiu ter devoldido a paz à Nicarágua e que derrotou os ;terroristas;.


Promessa
;Eu vou atrás de justiça até o último dia da minha vida. Vou mexer com o mundo inteiro, mas quem tirou a vida da minha filha vai pagar;, prometeu Maria José, poucas horas depois do enterro de Raynéia. Ela também mostrou ceticismo em relação à justificativa apresentada por Pierson. ;O camarada vem com uma versão de que ela vinha em alta velocidade. Se fosse ele o real autor do crime, por que o carro e o celular de Raynéia desapareceram? As câmeras também foram retiradas. Se fosse apenas um vigilante, acha que teria acontecido isso?;, questionou.

A aposentada avisou que ;muita água vai rolar;. Ela pretende escrever duas biografias sobre a filha e intensificar a pressão sobre o governo de Daniel Ortega por justiça e por reparação financeira. ;A palavra é punição;, avisou. Maria José disse que o sepultamento da estudante de medicina foi ;digno da categoria dela; e se emocionou ao falar sobre o certificado de conclusão do curso, ainda que em caráter póstumo. ;O diploma é a maior honra do mundo. Não há dinheiro que o compre. Desde criança, Raynéia sonhava ser médica. Ela comeu o pão que o diabo amassou na Nicarágua, em busca desse sonho, e eles tiveram a sensibilidade de liberar o diploma. Isso é o orgulho da minha vida;, desabafou a mãe, que recebeu ontem um telefonema do governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB). ;Ele se comprometeu a vir me visitar em Garanhuns. O Estado mandou um assistente social, uma psicólogia e um advogado, além de pagar toda a despesa com o traslado do corpo. Não fosse isso, minha filha seria enterrada lá como indigente.; O pai de Raynéia, Ridevando Pereira, disse ao Correio não ter condições de falar sobre o caso.



317317
Total de mortes provocadas pela repressão aos protestos contra o governo do presidente Daniel Ortega, desde 18 de abril



Eu acho...

;Eu não estou acreditando que tenha sido esse camarada (Pierson Gutiérrez Solís). Para mim, ele está servindo de laranja, a fim de acobertar a parte do governo. Se ela tivesse passado em alta velocidade diante de onde esse cara estava, era para ele atirar em direção dos pneus do carro, não diretamente na minha filha. Vejo que essa história está muito mal contada. Se ele matou de forma premeditada, em legítima defesa, ou isso, ou aquilo, não me interessa. Eu quero que ele, ou quem seja que mandou assassiná-la, pague. Quero indenização de Manágua pela morte da minha filha.;


Maria José da Costa, 55, aposentada, mãe de Raynéia Gabrielle


;Antes de culparem a vítima, eles deveriam esgotar todas as linhas de investigação. Isso é um péssimo sinal sobre a eficiência e a imparcialidade do Ministério Público local. E somente reforça a importância de uma fiscalização internacional em relação à Nicarágua. Em relação à violência, nós atualizamos as nossas crifras para 317 pessoas falecidas em pouco mais de 100 dias. Neste momento, a repressão está se transformando de um modelo de ação armada para um modelo burocrático de uso das instituições para perseguir politicamente e criminalizar a oposição.;


Paulo Abrão, secretário executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da OEA

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