Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 14/09/2018 00:00
Acabou a sopa

Da mesma maneira que, no Brasil, tudo pode terminar em samba, e, de uma simples caixinha de fósforo, salta uma canção genial, tudo pode acabar em crônica. De um quase nada, nasceram textos sublimes se a pena do escriba era inspirada.

Mas, como se sabe, a crônica é um estado de espírito e todo cronista que se preze tem o seu dia de desespero sem nenhum fio de ideia para preencher a página. Em face da enrascada, nasceu um subgênero: a falta de assunto.

No entanto, desde que feita com engenhosidade, graça e imaginação, a desfaçatez é tolerada e mesmo apreciada pelo leitor, no território do mais livre e dos mais desengravatados dos gêneros jornalísticos. Porque, afinal, a função da crônica é entreter, devanear e rir dos nossos desconcertos. Vamos ao caso.

Três dos maiores craques da crônica eram amigos inseparáveis e trabalhavam para jornais concorrentes no Rio de Janeiro: Rubem Braga, no Diário de Notícias, Paulo Mendes Campos, no Diário Carioca, e Fernando Sabino em O Jornal.

Bebiam juntos, viviam na casa do outro, trocavam e pediam ideias para se desincumbirem do ofício cotidiano de cronistas. Imaginem se essa cena seria possível na era de competição e profissionalismo absolutos dos tempos atuais?

O próprio Sabino denunciou a situação em um texto confessional intitulado Éramos três condenados da crônica diária. Claro que a convivência cotidiana e intensa só poderia resultar em terríveis coincidências de ideias na hora de escrever crônicas. Quando um edifício caiu, saíram os seguintes títulos: ;Mas não cai?;, ;Vai cair; e ;Caiu;.

Certo dia, Braga pediu, sem rodeios, uma crônica emprestada a Fernando Sabino. O autor de Encontro marcado fez uma varredura e repassou uma sobre a história de um menino que solicitou alguns trocados para comprar uma sopa na Lapa.

Sabino seguiu o garoto até a chamada casa de pasto, conferiu se o lugar existia e checou o preço.

O título era O preço da sopa. Braga aperfeiçoou a narrativa, mudou ;casa de pasto; para ;restaurante;, elevou o preço para cinco cruzeiros e optou pelo título despojado: A sopa.
Mas nada como um dia depois do outro. Chegou a vez de Sabino entrar em agonia diante da página em branco e de pedir uma crônica emprestada aos amigos, uma usada, da qual não precisassem mais: ;Vou ver o que posso fazer;, respondeu Braga.

Com o maior descaro, Braga devolveu a mesma história interminável da sopa: ;Logo esta;, contestou Sabino. E Braga replicou: ;As outras são muito gastas;. Sem ter outra alternativa, Fernando Sabino providenciou os remendos, atualizou os preços e deu-lhe um título profético e fulminante: ;Essa sopa vai acabar;.




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