Esporte que une e dá cidadania

Esporte que une e dá cidadania

Programa, premiado pela iniciativa de práticas esportivas à meia-noite, transforma vidas, mas ainda precisa de mais apoio governamental, como segurança e alimentação

» Mariana Machado Especial para o Correio
postado em 02/10/2018 00:00
 (foto: Mariana Machado/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Mariana Machado/Esp. CB/D.A Press)


Com quase 20 anos de funcionamento, o Esporte à Meia-Noite treinou mais de 387 mil pessoas em situação de vulnerabilidade, e recebeu prêmios de reconhecimento pelo trabalho feito, incluindo o de destaque no apoio à infância e adolescência, do Instituto Ethos. São 10 pontos de atendimento, que recebem diariamente cerca de 20 alunos, mas o número pode chegar a 150 em dias de campeonatos. Neste ano, o programa virou lei (n; 6.111/2018). Um dos idealizadores, e atual coordenador no núcleo da Cidade Estrutural, professor Lino Ribeiro se emociona ao falar das conquistas que teve. ;Há 9 anos, o êxodo escolar era muito grande e existia aquela história de não pertencer ao lugar. Ninguém queria dizer que era da Estrutural, todo mundo negava. Fomos trabalhando e hoje os alunos têm verdadeira admiração pela cidade;, avalia.

O núcleo da Estrutural funciona no Centro Educacional (CED) 01 e oferece aulas de vôlei, às segundas e quartas-feiras, basquete às terças e quintas-feiras, e futsal às sextas-feiras. Mas, o projeto vai além da prática esportiva. O incentivo aos estudos tem impulsionado muita gente a escolher rumos na vida.

É o caso do hoje advogado Lucas Furquim, 23. Há sete anos ele começou a jogar vôlei e conta que o convívio com os colegas foi um grande impulso para escolher o curso de direito. ;Acham que na Estrutural só há bandido, mas aqui eu aprendi harmonia. As pessoas têm problemas, mas muito pode ser resolvido com o programa;, relata.

Segundo Lucas, a oportunidade de praticar atividades físicas tem tirado muita gente da criminalidade. ;Quando o Esporte à Meia-Noite chegou, poucos sabiam a respeito, houve um crescimento. Todo ano lutamos para manter o projeto, porque sempre há algum político querendo acabar com tudo. É algo que ajudou e continua ajudando muita gente aqui, tirando das drogas e incentivando o esporte;, destaca.

Mais apoio

Além da Estrutural, há núcleos em Ceilândia, Samambaia, São Sebastião, Sobradinho 2, Gama, Santa Maria, Paranoá e Planaltina e as aulas são sempre das 22h às 2h. Foi o próprio Lino que sugeriu o horário. ;Na época, achavam que eu era louco, mas depois viram que é na noite que ocorrem mais crimes, então era o ideal para tirar essas pessoas da rua e colocar em um esporte;, afirma o professor.

Mas, tanto instrutores quanto alunos reclamam da falta de apoio das forças de segurança. No início, havia efetivos do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar dedicados ao programa. Hoje, caso um aluno se machuque, os professores devem prestar socorro e acompanhar a pessoa ao hospital.

;Nós seguramos a barra quando alguém machuca. Vamos ao hospital e passamos a madrugada com ele. Saio de lá às 8h e ainda deixo esse menino em casa. Se houvesse um bombeiro como antigamente, o jovem era atendido prontamente com eficiência e rapidez;, reclama Lino.







Tratamento

Além disso, não há mais as equipes de policiais militares que ficavam voltados para a segurança dos frequentadores. A única exceção é em Ceilândia, onde ainda há policiamento, mas a professora Andreia Silva teme que em breve não haja mais. ;É uma polícia com tratamento diferenciado, não repressiva. Eles fazem com que as pessoas queiram ir sem medo às quadras;.

A Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou por meio de nota que o batalhão de cada área é acionado em caso de emergência. ;Além disso, em março do ano passado os professores do Esporte à Meia-Noite passaram por um curso de formação em primeiros socorros promovido pela corporação, para que, desta forma, possam auxiliar de imediato os participantes do projeto, se necessário;, informa o texto.

Sobre a segurança, a SSP disse que a Polícia Militar faz rondas nos horários de início e término das aulas. ;A coordenação do Esporte à Meia-Noite não tem conhecimento a respeito de casos de violência ocorridos dentro dos núcleos;, finaliza a nota.

Para Douglas Washington de Sousa, 23, morador da Estrutural, parece haver um descaso com os atletas. ;Aqui na cidadem os policiais confundem as pessoas. Às vezes, a gente está saindo do esporte e toma baculejo. Antes mesmo de explicar quem somos, estão gritando conosco como se fôssemos animais. Não é só porque a gente mora na Estrutural que somos vagabundos;, reclama.

Douglas, que trabalha como fotógrafo, frequenta as aulas desde os 16 anos, quando descobriu por acaso. ;Estava passando aqui e vi o pessoal jogando. Entrei e o professor me chamou para jogar;. A partir daí, nasceu uma paixão pelo vôlei, que cresceu a ponto de ultrapassar os muros da escola. Para reunir os amigos e praticar o esporte aos fins de semana, ele decidiu por conta própria iniciar o grupo ;Vôlei no Fluxo;, em 2013.

Música

Os amigos aderiram à ideia e chamaram mais gente para participar. Todos os domingos, quem quiser se junta à turma que joga em frente ao Centro de Referência e Assistência Social (Cras). ;Inicialmente a gente queria reunir a galera da escola, mas a coisa foi crescendo. No domingo quem não tem o que fazer, vai para lá. Quem não joga, escuta música, torce pelos times;, explica Douglas.

E o ;Vôlei no Fluxo; acabou atraindo mais gente para o Esporte à Meia-Noite. A estudante Iara da Conceição, 18, entrou no projeto noturno este ano. ;Eu já conhecia, mas a minha mãe não me deixava participar, porque é perigoso sair assim tão tarde. Como todo mundo conhece e confia no Douglas, ele me busca em casa e a gente vem jogar;, conta.

Para participar, não é necessário se matricular. Basta comparecer a um dos locais onde ocorrem as aulas, que são gratuitas. Toda a comunidade é bem-vinda e há diversas opções de esporte em cada núcleo, como futsal, vôlei, basquete, ping pong e totó (ou pebolim).

Apesar de o fornecimento de alimentação para os frequentadores do Esporte à Meia-Noite estar previsto no decreto n; 33.329/2012, desde 2016 o governo não oferece o serviço. A Secretaria de Estado do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh) informa que um novo contrato está em elaboração, mas não deu prazo para quando isso será feito.

Enquanto isso, a falta de alimentação reflete em prejuízos para todos os núcleos. Em Ceilândia, os alunos que praticam atividades no Centro de Atendimento Integral à Criança e ao Adolescente (Caic), muitas vezes, saem mais cedo,

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