Racha exposto no ninho tucano

Racha exposto no ninho tucano

Discussão entre Geraldo Alckmin e João Doria foi presenciada por dirigentes do PSDB na reunião em que a Executiva Nacional decidiu liberar a militância na disputa entre Bolsonaro e Haddad pela Presidência

» Lucas Valença » Ingrid Soares
postado em 10/10/2018 00:00
 (foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)


Uma discussão entre o candidato derrotado à Presidência Geraldo Alckmin e o ex-prefeito de São Paulo, que disputará o segundo turno da eleição para o governo do estado, expôs ontem o racha na cúpula do PSDB. Alckmin, que saiu das urnas no domingo com menos de 5% dos votos, na quarta colocação, acusou de ;traição; o afilhado político, durante a reunião em que a Executiva Nacional da legenda decidiu, em Brasília, liberar os correligionários para escolher entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), no segundo turno da corrida pelo Planalto.

A confusão começou quando Doria questionou o montante de recursos financeiros reservado para a próxima etapa da campanha. Foi o momento em que o ex-governador de São Paulo se irritou e, segundo os presentes, chamou o candidato ao governo paulista de ;traidor;. Na saída do encontro, nenhum dos dois admitiu que o termo tenha sido utilizado, mas tampouco algum deles negou a versão.

O estopim da discórdia entre os tucanos foram os R$ 5 milhões reservados pelo partido para o segundo turno, soma bastante inferior aos R$ 210 milhões disponíveis na primeira fase da eleição. No entanto, um senador que presenciou a discussão ; e preferiu não se identificar ; entendeu que o entrevero decorre de um ;problema doméstico; entre Doria e Alckmin.

Após a reunião, o ex-prefeito disse que a eleição é ;um processo;, e quando o resultado da campanha não é o esperado, é ;evidente; que o candidato sai abalado emocionalmente pelo ;sofrimento pessoal;. ;Compreensível a qualquer cidadão. Eu relevo isso;, disse aos jornalistas. ;Se Geraldo (Alckmin) teve algum momento de dissabor, da minha parte tenho o perdão. Nada que possa abalar as nossas relações e o meu respeito ao Alckmin.;

Ao ser questionado sobre a origem da discussão, o candidato ao governo de São Paulo respondeu que saiu em defesa dos seis candidatos da legenda a governos estaduais, e fez ;duras críticas; à maneira como os recursos foram administrados pelo deputado federal Silvio Torres (SP), tesoureiro da Executiva Nacional. ;Como pode um partido da dimensão do PSDB não imaginar que não haveria um segundo turno, seja no plano nacional, seja no âmbito dos estados? E, nesse caso, houve uma manifestação minha que não foi bem recebida;, explicou.

Silvio Torres esclareceu que a forma de distribuir os recursos tinha sido acertada entre os membros do partido antes da campanha. Assim, dos R$ 210 milhões recebidos por meio do fundo eleitoral e do fundo partidário, foram repartidos entre todos os candidatos, apenas R$ 5 milhões foram reservados para o segundo turno. ;Doria foi o que mais recebeu. Ele recebeu, como todos, 30% do seu limite (de R$ 21 milhões) e mais uma ajuda extra de R$ 1,5 milhão do Alckmin;, lembrou.

O tesoureiro tucano entende que cada um poderia ter guardado um montante para o segundo turno. ;Ninguém foi obrigado a gastar tudo no primeiro turno. Cada um sabia do que foi acordado. Além disso, os candidatos têm os recursos próprios;, enfatizou.

O ex-governador Geraldo Alckmin contestou a visão de João Doria e afirmou não ser verdadeira a alegação de que não houve previsão para o segundo turno. No entanto, o candidato derrotado à Presidência procurou evitar o assunto, ao dizer que ;não se faz política pela imprensa;. A frase foi atribuída ao falecido ex-governador paulista Mário Covas.

Questionado se a palavra ;traidor; havia sido proferida por ele, o ex-presidenciável repetiu que não faz ;política pela imprensa;. Momentos depois da reunião, um áudio foi divulgado pela imprensa com parte do bate-boca. Nela, é possível ouvir que Alckmin diz: ;Traidor eu não sou;. Outra pessoa, que não foi possível identificar, completa: ;Nem falso;.

Liberação

A Executiva do PSDB decidiu liberar os militantes e os líderes partidários a se posicionarem livremente sobre o segundo turno da disputa presidencial, entre Bolsonaro e Haddad. ;O partido não apoiará nem um nem outro. E libera os seus filiados e líderes para que decidam de acordo com a consciência, com a convicção e com a realidade dos estados;, informou Alckmin.

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