Renúncia inexplicável

Renúncia inexplicável

Em gesto surpreendente, Nikki Haley, embaixadora de Washington na ONU, anuncia que deixará o posto em janeiro e descarta motivos pessoais. Trump elogia assessora, cujo nome foi ligado a artigo polêmico publicado no jornal The New York Times

Rodrigo Craveiro
postado em 10/10/2018 00:00
 (foto: Olivier Douliery/AFP



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(foto: Olivier Douliery/AFP )

"Foi uma bênção entrar na ONU com uma armadura corporal, todos os dias, e defender a América. Eu nunca vou realmente deixar de lutar pelo nosso país. Mas direi a vocês que acho que é hora;

Nikki Haley,
ex-embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas

"Ela tem feito um trabalho fantástico e temos feito um trabalho fantástico juntos. Nós resolvemos muitos problemas, e estamos no processo de resolução de problemas. (;) É uma pessoa fantástica;

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos

A carta de renúncia, assinada em 3 de outubro passado, foi entregue pela embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Nikki Haley, ao presidente Donald Trump. Não houve justificativas, apenas uma lacônica afirmação de que a rotatividade em cargos públicos beneficia a sociedade. ;Estou me demitindo de minha posição. Para dar a você tempo para selecionar um substituto, e tempo ao Senado para considerar a sua escolha, estou preparada para continuar a servir até janeiro de 2019;, escreveu. Ao receber Haley no Salão Oval da Casa Branca, Trump despejou elogios sobre o desempenho da ex-governadora da Carolina do Sul nas Nações Unidas. ;Ela tem sido muito especial para mim. Ela tem feito um trabalho incrível. É uma pessoa fantásica, muito importante, mas também alguém que entende. Ela esteve na ONU desde o início conosco e trabalhou em nossa campanha;, declarou o republicano.

Três hipóteses são consideradas para explicar o abandono do cargo: uma indisposição com o conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, e o secretário de Estado, Mike Pompeo; dificuldades financeiras; e planos para disputar as eleições presidenciais de 2020 ; os quais ela nega. Haley levantou suspeitas de ser a autora de um artigo anônimo publicado, em 5 de setembro, no jornal The New York Times, que aponta uma ;resistência interna; na Casa Branca e revela que assessores esconderam documentos para impedir Trump de assiná-los. ;Como ex-governadora, acho absolutamente arrepiante imaginar que um membro do alto escalão de minha equipe tentaria secretamente frustrar minha agenda;, rebateu, em texto divulgado pelo The Washington Post.

Aos 46 anos, filha de imigrantes indianos, de posições conservadoras e sem papas na língua, Nikki Haley se tornou um dos nomes mais importantes do Partido Republicano. No Conselho de Segurança da ONU, ficou famosa pelas críticas incisivas aos regimes de Venezuela, Cuba, Nicarágua e Irã. Chegou a abertamente defender a partida do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, do poder. Ontem, ela assegurou que ;não existem razões pessoais; para a renúncia. ;Acho que é muito importante que as autoridades entendam quando é hora de se afastar. Eu dei tudo de mim nos últimos oito anos. Às vezes, é bom dar lugar a outras pessoas que possam colocar a mesma energia e o mesmo poder;, disse Haley, na Casa Branca. ;Foi uma bênção entrar na ONU com uma armadura corporal, todos os dias, e defender a América. Eu nunca vou realmente deixar de lutar pelo nosso país. Mas direi a vocês que acho que é hora.; A embaixadora dos EUA nas Nações Unidas se tornou ontem a 36; assessora de Trump a deixar o cargo, por renúncia ou demissão (veja o quadro).

Substitutos

A imprensa norte-americana começou a especular sobre prováveis substitutos. ;Nós temos um número de pessoas que gostariam muito de fazer isso. É uma grande posição... Ela me ajudou a torná-la uma posição muito melhor;, disse o presidente. Dina Powell, ex-vice-conselheira de Segurança Nacional para Estratégia da Casa Branca e professora da Universidade de Harvard, aparece como forte candidata. Outro nome cotado é o de Rick Grenell, embaixador dos EUA na Alemanha. Apesar de lembrada pela mídia, Ivanka Trump, filha do presidente, encontraria resistência do Senado. ;É uma honra servir na Casa Branca ao lado de tantos grandes colegas, e sei que o presidente nomeará um substituto formidável para a embaixadora Haley. Esse substituto não será eu;, avisou, por meio do Twitter.

Em entrevista ao Correio, Parag Khanna ; cientista político indo-americano e autor de How to run the world (;Como dirigir o mundo;) ; aposta que a renúncia de Nikki Haleu se deva a divisões no governo. ;Creio ser resultado de brigas na política interna, desde que John Bolton assumiu o posto de conselheiro de Segurança Nacional. A formulação de políticas tem sido altamente centralizada em Washington entre Pompeo, Bolton e James Matis (secretário de Defesa), que acessam diretamente Trump;, explicou. ;Com a proximidade das eleições de meio de mandato (em novembro) e com a probabilidade de que os democratas obterão ganhos, ela percebeu que a política externa se tornará ainda mais controversa.; Professor de ciência política da Universidade da Cidade de Nova York, Thomas G. Weiss disse que a saída de Haley foi ;totalmente inesperada por insiders e por especialistas de todos os tipos;. ;Eu suspeito que exista uma divergência de pontos de vista, mas duvido que ela seja a autora do artigo do The New York Times;, afirmou à reportagem.

Surpresa entre especialistas
;Assim como todas as pessoas que conheço, fiquei muito surpreendido, totalmente surpreso com a demissão de Nikki Haley. Ela é ambiciosa demais para se demitir sem que houvesse algum problema. Até porque Haley não tem base para disputar nenhum cargo político no momento.;



Thomas G. Weiss, professor de ciência política da Universidade da Cidade de Nova York


;Estou surpreso com a renúncia de Haley, especialmente porque eu não acho que ela disputará uma eleição contra Trump em 2020. Eu não creio que ela seja a autora do artigo anônimo publicado no The New York Times, mas eventualmente nós vamos descobrir.;


Parag Khanna, cientista político e escritor indo-americano



Principais baixas no governo

Nos últimos 605 dias, 36 assessores do governo Trump renunciaram ou foram demitidos. Confira os mais importantes:

Michael Flynn, conselheiro de Segurança Nacional
Em 13 de outubro de 2017, foi forçado a deixar o cargo em meio a suspeitas de ter mentido sobre a natureza de suas conversas com o embaixador da Rússia em Washington, Sergey I. Kislyak.

James B. Comey, diretor do FBI
Em 9 de maio de 2017, Trump anunciou a demissão de Comey em rede de TV, sob a justificativa de que que o presidente estava frustrado com a investigação sobre a interferência russa nas eleições.

Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca
Dois meses depois de Comey, Spicer apresentou a demissão após revelar a Trump que discordava da escolha de Anthony Scaramucci como diretor de comunicações da Casa Branca.<

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