Protestos levam 135 mil às ruas

Protestos levam 135 mil às ruas

Medidas de segurança evitam o quebra-quebra do fim de semana passado, mas confrontos entre policiais e manifestantes resultam em mais de 1.300 prisões. Governo promete novas medidas para %u201Cnutrir o diálogo%u201D

postado em 09/12/2018 00:00
 (foto: Thomas Samson/AFP)
(foto: Thomas Samson/AFP)


Cerca de 135 mil pessoas foram às ruas da França no quarto sábado consecutivo de protestos dos coletes amarelos contra o governo do presidente Emmanoel Macron. Medidas excepcionais de segurança em Paris, como o inédito uso de blindados e a mobilização de 90 mil agentes mobilizados, conseguiram evitar a repetição das cenas caóticas de depredação do último fim de semana, mas novos confrontos irromperam entre a polícia e os manifestantes, com a apreensão de objetos como máscaras, martelos e paralelepípedos.

Ao detalhar que houve 1.385 detenções, 651 delas na capital, e 975 pessoas em prisão preventiva, o ministro do Interior, Christophe Castaner, avisou que o número poderia aumentar. ;É um nível excepcional;, destacou o ministro, que também deu um balanço de 118 feridos entre os manifestantes e 17 nas forças de segurança. À noite, o primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, tentou acalmar o clima e prometeu que Macron ;falará e proporá medidas para nutrir o diálogo;. ;Temos de tecer novamente a unidade nacional;, acrescentou, em breve declaração transmitida na televisão.

Na semana passada, Macron cedeu a algumas das demandas dos manifestantes: anulou o aumento do imposto sobre combustíveis, parte de um plano para combater a mudança climática, e congelou os preços do gás e da energia elétrica nos próximos meses. O protestos, porém, se mantiveram e, ontem, pela primeira vez, blindados foram usados na capital francesa. Pela manhã, a polícia usou gás lacrimogêneo para tentar conter manifestantes em uma rua adjacente à Champs-Élysées, perto do Arco do Triunfo, epicentro dos distúrbios do último fim de semana. Alguns manifestantes responderam lançando rojões. Outros tentaram incendiar a fachada da Drugstore Publicis, um estabelecimento comercial de luxo, onde a tensão aumentou no início da tarde.

A Torre Eiffel, o museu do Louvre e quase todas as lojas estavam fechados, com entradas e vitrines protegidas com painéis de madeira para evitar saques e quebra-quebra. ;Faço isso pelo futuro do meu filho. Não posso permitir que ele viva em um país onde outros se enriquecem às nossas custas;, disse Denis, 30 anos. Tim Viteau, desempregado de 29 anos, participou pelo terceiro sábado seguido das manifestações, que ganharam uma pauta além da questão dos impostos. ;Como vamos ter filhos? Eu também quero ter filhos;. Ele e sua namorada tiveram de voltar para a casa dos pais porque não conseguiram pagar o aluguel.



Ruas bloqueadas

Todo o oeste de Paris, onde ficam o Palácio do Eliseu (sede da Presidência) e a maioria dos ministérios, ficou coberto de azul, a cor das viaturas da polícia. As patrulhas bloquearam o acesso às principais praças da capital, incluindo a da Concorde, um dos extremos da avenida Champs-Élysées, que vai até o Arco do Triunfo. A poucas ruas do Palácio do Eliseu, na praça de Madeleine, estavam John e Dorian, de 31 e 29 anos, respectivamente. Gendarmes verificavam seus documentos. ;É a segunda vez! Na estação do metrô já tiraram tudo. Os óculos de natação, o lenço, as caneleiras...;, conta Dorian, procedente de um subúrbio parisiense. ;Estamos aqui para que nos escutem, pacificamente;, insistiu.

No restante do país, a calma prevaleceu pela manhã, mas houve registros de confrontos na parte da tarde. Na autoestrada que conecta Paris a Bordeaux (sudoeste), mais de 100 pessoas atearam fogo a pedaços de pau e pneus, bloqueando o fluxo de veículos durante boa parte do dia. Na fronteira franco-espanhola, os coletes amarelos montaram uma barricada seletiva, que bloqueava a passagem dos caminhões procedentes da Espanha, informou a prefeitura dos Pirineus Atlânticos.

Rodovias foram bloqueadas antes das manifestações como medida preventiva, mas algumas estratégias vazaram ainda na sexta-feira. O Ministério Público de Paris abriu uma investigação depois de sair na internet uma nota técnica da Direção da Segurança e Proximidade de Aglomeração sobre o dispositivo mobilizado para o dia de protestos.


"(O presidente) falará e proporá medidas para nutrir o diálogo. Temos de tecer novamente a unidade nacional;
Edouard Philippe,
primeiro-ministro francês


Trump volta a ironizar
O presidente americano, Donald Trump, voltou a atacar o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, ao assegurar que os protestos dos coletes amarelos na França são prova do mal funcionamento desse pacto. ;O Acordo de Paris não está funcionando muito bem para Paris. Protestos e distúrbios por toda a França, escreveu, ontem, em um tuíte. ;As pessoas não querem pagar grandes quantias de dinheiro, muitas a países do terceiro mundo (que são questionavelmente dirigidos), para talvez proteger o ambiente;, acrescentou. Na terça-feira, o americano ironizou as concessões feitas pelo presidente Emmanuel Macron diante do movimento dos coletes amarelos, estimando o fracasso do Acordo de Paris.

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