Empenho para reverter derrota

Empenho para reverter derrota

Governo se mobiliza para barrar transferência do Coaf da Justiça para a Economia. Bolsonaro menciona "tsunami na semana que vem"

» RODOLFO COSTA » BERNARDO BITTAR
postado em 11/05/2019 00:00
 (foto: Sérgio Lima/AFP - 8/11/18)
(foto: Sérgio Lima/AFP - 8/11/18)


O governo não vai deixar barato o revés sofrido no Congresso com a transferência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Ministério da Justiça para a pasta da Economia. A ordem é trabalhar o convencimento junto a deputados e senadores para reverter a derrota amargada na Comissão Mista que trata da Medida Provisória (MP) 870, da reforma administrativa. A estratégia é amenizar o ;tsunami na semana que vem;, expressão usada pelo próprio presidente Jair Bolsonaro ao comentar, ontem, ;alguns problemas; enfrentados.

A articulação foi desenhada entre o Planalto e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro. A ideia é que ele e o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, recebam parlamentares para reuniões ;até que acabe o café da Esplanada;, como mencionou um interlocutor do Planalto. O Palácio não quer deixar o articulador do governo sobrecarregado na função, ou seja, caberá ao ex-juiz trabalhar para reverter, no plenário da Câmara, a medida de realocação do Coaf.

Interessado na vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), que abre em 2020, Moro precisa mostrar ao Planalto o poder de articulação enquanto aliado do governo. ;Só assim conseguirá ficar com a cadeira no STF, uma das mais cobiçadas do país e, em especial, cobiçada por ele. O ministro Moro foi juiz auxiliar na Corte. Quer voltar por cima;, analisou um técnico judiciário.

Para conseguir o almejado cargo na Corte, o ministro da Justiça terá de permanecer, ao menos durante um ano, no cargo que ocupa atualmente, além de convencer o presidente da República, responsável pelas indicações dos ministros do STF, de que será um aliado de primeira hora do Planalto. ;O cargo no Supremo é, além de tudo, político. Se Moro não conseguir vencer as dificuldades no plenário para tentar conseguir uma coisa que ele mesmo almeja (a permanência do Coaf na Justiça), que serventia terá para o governo em tempos difíceis?;, ponderou um assessor palaciano.

Articulação

A meta de Moro, entretanto, não é fácil. A derrota em relação ao Coaf não ocorreu à toa. Foi um recado cirúrgico orquestrado pelo Centrão. Lideranças do partido criticam, desde o início do ano legislativo, em fevereiro, a interlocução feita pela Casa Civil. Lideranças nos partidos admitem que nada têm contra o ministro, mas avaliam que era preciso dar uma resposta dura ao governo. ;Essa derrota o governo pode pôr na conta do Onyx. E não adianta colocar o Moro para falar com 10, 20 ou 30 parlamentares. Enquanto a articulação não mudar, novas derrotas virão;, alertou um deles.

O golpe foi sentido. O assunto acabou sendo amplamente comentado nos corredores do Planalto entre quinta e sexta-feira. Sobretudo ontem, com a poeira baixada. A leitura é de que algo precisa ser feito, mudanças ou intensificações no diálogo com o parlamento, principalmente em relação ao Centrão. O bloco partidário almeja ocupar espaços no governo por meio de indicações políticas nos estados. Até o momento, essa interlocução está parada ; a Casa Civil é acusada por lideranças de privilegiar apenas congressistas próximos e fiéis a Lorenzoni.

A preocupação em relação aos próximos movimentos foi sinalizada por Bolsonaro. Ontem, sustentou que o governo deve se antecipar aos desafios que virão, mas citou quais serão. ;Assim estamos governando. Alguns problemas? Sim. Talvez, tenha um tsunami na semana que vem, mas a gente vence esse obstáculo aí, com toda a certeza. Somos humanos, alguns erram. Alguns erros são perdoáveis, outros, não;, declarou.

O governo corre contra o tempo para prover uma articulação capaz de reverter o resultado em plenário. Para isso, é necessário haver precisão, sem espaço para erros. Afinal, a MP 870 perde efeito em 3 de junho e, na frente dela, há cinco MPs a serem votadas. Ou seja, a interlocução do governo precisará de um esforço concentrado para colocar o Congresso votando as matérias.

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