Cidade nossa

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Paulo Pestana Especial para o Correio papestana@uol.com.br
postado em 26/05/2019 00:00


Contra a cultura

Contracultura ou contra a cultura? Há um estranho movimento no ar que está colocando a cultura nacional em xeque. Nada a ver com o movimento popularizado pelos hippies, quase 50 anos atrás; é apenas mais um capítulo da estúpida briga ideológica que vem sendo travada no Brasil e que só interessa mesmo a... ninguém.

A insatisfação mundial começou logo depois da Segunda Grande Guerra, quando Sartre popularizou a filosofia existencialista de Kierkgaard, sustentando que cada um era responsável em dar significado à própria vida ao lutar contra angústia, ansiedade, tédio e alienação, entre outros adversários.

Mas foi na década de 1960 que a contracultura tomou corpo, contestando valores tão caros à época e virando o mundo de ponta-cabeça. Tantos anos depois, a discussão está na contramão. Agora, somos um país de rica cultura, mas que se pôs contra ela, a vilã do momento, bombardeada de todo lado, como se fosse responsável por todas as mazelas.

A contracultura nasceu rompendo com os hábitos consagrados de comportamento e pensamento da sociedade da época, mas explorando a não violência a partir do lema ;paz e amor;, que de vez em quando reaparece em bocas contemporâneas, mesmo as mais beligerantes.

A explosão durou até os anos 1980, quando os filhos dos hippies ; os yuppies ; entraram no mercado de trabalho com sede capitalista insaciável, deixando uma pergunta no ar: quem educou esses meninos para isso?

O fenômeno estaria se repetindo? Quem educou esse pessoal que se coloca tão radicalmente a qualquer incentivo à produção cultural do país?

Dia desses, correu pelos telefones celulares um vídeo em tom de denúncia com gastos feitos pelo governo com projetos culturais. Não vale a pena se prender aos números alegados; a internet continua sendo o reino da desinformação. É melhor ficar com dados oficiais do próprio Ministério da Cultura: apenas 0,01% dos gastos públicos vai para o setor.

Mas a questão é um pouco mais profunda do que a matemática. Se há muito desperdício na aplicação de verbas em determinadas áreas culturais ; e há ;, falta dinheiro para o fomento e, principalmente, para a formação. É a mesma inversão vista na educação; nos últimos anos o governo federal investiu maciçamente nos cursos superiores e muito pouco na base do ensino. O resultado é que hoje temos um país de doutores incapazes.

A cultura brasileira, ainda mais num momento de crise econômica, não se sustenta sem apoio oficial. A indústria musical não se recuperou do baque sofrido com a pirataria; norte-americanos e ingleses se reergueram com o streaming pago, o que não aconteceu aqui. O mesmo ocorreu com o cinema; se uma linguagem mais próxima das atrações da tevê criou um novo público, o preço dos ingressos ; como no teatro ; limita o acesso.

Que se escolha melhor os projetos a serem apoiados, que se priorize a educação e a formação de futuros artistas, que se faça apostas em áreas de maior ousadia, mas culpar a cultura pela falta de investimento em outras áreas é investir num país ainda mais pobre.




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