Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

Adriana Bernardes adriana.bernardes@cbnet.com.br
postado em 20/08/2019 00:00
A bruxa da chuva

A chuva chegou de mansinho. Era meio da tarde de um dia qualquer de setembro. Não havia nuvens escuras e densas no céu. O prenúncio se deu, primeiro, pelo olfato. Abri a janela, alarguei as narinas, joguei para os pulmões tanto ar quanto consegui e tive a certeza: vai chover! A constatação, em voz alta, arrancou risos dos colegas de bancada.

; Você está louca, que chover que nada! Nem nuvem tem no céu. Só essa secura danada!

A chacota generalizada não abalou minhas convicções. O cheiro de terra molhada estava no ar. E o vento soprava suavemente mais fresco.

; Pois vai chover entre hoje e amanhã.

E choveu. Não por todo o Distrito Federal nem o suficiente para abrandar o calor ; ao contrário, como ocorre nessa época, os termômetros ferveram ;, mas ela veio e saciou meu desejo por chuva. Depois disso, com certa desconfiança e uma dose extra de bom humor, alguns passaram a acreditar quando eu anunciava a chuva antes de ela cair. Não sem antes me chamarem de ;bruxa;.

O hábito de (pre) sentir a chegada da chuva foi um presente de Brasília. Nascida na roça, às margens de um riacho nos cafundós de Minas Gerais, cresci no meio do cerrado, com uma serrinha bem ao longe, de onde a chuva, na minha cabeça de criança, nascia para refrescar os dias de verão.

Naquele tempo, antes mesmo que o céu ficasse escuro ou que o tom cinza tomasse a serra, sentia-se o cheiro de terra molhada e a mudança da brisa. O jeito de confirmar era olhando em direção ao ;berço da chuva;.

A mudança para a cidade grande, ainda na infância, a perda do horizonte, tomado por edifícios, e a correria imposta pela vida nas grandes urbes adormeceu em mim a percepção da chuva chegando. Mas aí veio Brasília e a seca de Brasília. E, com ela, a sensação de falta de ar, o nariz queimando, os lábios rachando e os neurônios agindo como se estivessem completamente bêbados! Foram esses momentos que, aos poucos, me fizeram voltar às minhas origens: de sentir os sinais da chuva no cheiro e na brisa.

Mas há outros sinais da natureza e, em Brasília, eles são infalíveis. No auge da estiagem, brotos bem miúdos pintam de verde os galhos secos de algumas árvores. Os olhares atentos também conseguem ver uma segunda camada de grama que não chega a ser verde, mas também não tem a cor marrom do imenso tapete seco que cobre as áreas verdes da capital.

Ontem, os sensores do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registraram 18% de umidade. É o índice mais baixo do ano e foi registrado pela primeira vez em julho passado. E a chuva? Nem sinal dela! Nem nas previsões dos meteorologistas, nem nas minhas narinas e pele! Sigamos com os umidificadores ligados.




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