Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Humberto Rezende >> humbertorezende.df@dabr.com.br
postado em 21/09/2019 00:00
Como é que pode?

No grupo de zap da família, um meme nos lembra (como se precisasse) da secura e do calorão que nos derretem. A imagem mostra o rosto de um nativo norte-americano com a frase: ;Procura-se índio com experiência em dança da chuva;. Depois de rir, minha mente ultradispersiva me põe, num piscar de olhos, a lembrar de uma das maiores coincidências da história climática brasileira, que até hoje me deixa assim, meio em dúvida se foi só coincidência mesmo.

O jovem leitor talvez não saiba, e os mais velhos talvez não se lembrem. Mas foi em 1998. Naquele ano, Roraima vivia um grande incêndio, que tinha consumido um pedação da Amazônia, e os bombeiros não conseguiam apagar as chamas. O tempo não ajudava, e o governo ; acho que federal mesmo ; chamou dois pajés caiapós para fazer uma pajelança chamando a chuva.

O desespero era tanto que até ofereceram uma graninha se o trabalho desse resultado. Os pajés toparam e foram lá, fazer seus rituais, enquanto a gente se perguntava como tínhamos chegado ao ponto de apelar à dança da chuva para salvar a floresta. No dia seguinte, choveu. Sim, caro leitor, choveu! De verdade. Não é zoação. Como é que pode, né?

Acho que já falei neste mesmo espaço que sou agnóstico. Para quem não sabe, o agnóstico é um ateu indeciso. Não sabe se acredita ou não em Deus. Fica ali, em cima do muro. Vai que morre e depois se vê diante de Deus, sendo cobrando pela falta de fé. Diferentemente do ateu, o agnóstico ainda pode se sair com uma desculpa: ;Não é que não acreditava no Senhor, só tinha dúvidas. Sou meio burro para insinuações, e os sinais que o Senhor mandou para mim nunca foram muito claros;.

Brincadeiras à parte, uma das coisas que não me deixam ser ateu são as coincidências. Esses momentos em que tudo que nos resta é fazer a pergunta ali de cima: como é que pode? Tem horas que a sincronia dos eventos é tão absurda que só nos resta desconfiar de que são fruto de alguma inteligência invisível que mexeu as peças para tudo dar certo. Os pajés pedem a chuva, e a chuva vem? Deve ter dedo de algum deus aí.

A outra coisa que me faz pensar que talvez haja mesmo mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia é o espaço sideral. Primeiro, porque o Cosmos é cheio de coincidências absurdas. A começar pela Terra: um planetinha insignificante que calhou de estar a distância exata do Sol para que não fosse nem muito frio nem muito quente (ok, às vezes, em Brasília duvidamos dessa parte). Só assim, nessa exata configuração, foi possível que existíssemos. Além disso, porém, o Universo é absurdamente inexplicável. Até para os mais sabidos dos cientistas.

Lembro até hoje no quanto fiquei impressionado ao ouvir falar de uma tal energia escura. Se você não sabe, tento te explicar. É o seguinte: os físicos dizem que o Universo foi criado em uma espécie de explosão, depois da qual começou a se expandir. Como há muita matéria no Universo, há muita gravidade, o que, logicamente, deveria frear essa expansão. Mas eis que eles descobrem que não, que o Universo não está se expandindo cada vez mais lenta, mas de maneira mais rápida. Espantados, chegaram à conclusão de que isso só pode ser possível se houver uma forma de energia desconhecida dando uma forcinha pro Universo. E deram o nome para ela de energia escura. Mas ainda não sabem direito o que exatamente é isso. Não é bizarro? Como é que pode?



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