Mais um na guerra

Mais um na guerra

Parlamento da Turquia recebe hoje solicitação do governo para enviar tropas à Síria e ao Iraque e reforçar a coalizão comandada pelos Estados Unidos contra os extremistas do Estado Islâmico. Tanques já tomam posição na fronteira

GABRIELA FREIRE VALENTE
postado em 30/09/2014 00:00
 (foto: Bulent Kilic/AFP)
(foto: Bulent Kilic/AFP)





O governo turco decidiu pedir autorização do Legislativo para enviar tropas à Síria e ao Iraque para combater os extremistas do grupo sunita Estado Islâmico (EI). ;As moções devem ser enviadas na terça-feira (hoje), para que o parlamento se pronuncie;, afirmou Cemi Ciçek, presidente da Assembleia Nacional, ao canal NTV. Segundo a imprensa turca, dois textos serão apresentados aos legisladores, e o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu espera que as propostas sejam discutidas na quinta-feira. Antes mesmo da autorização para intervir contra os extremistas, pelo menos 15 tanques turcos foram posicionados ao longo da fronteira com a Síria, diante do avanço dos jihadistas em direção à cidade curda de Ain Al-Arab (Kobane, em curdo).

Rami Abdel Rahman, diretor do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), afirmou ontem que o EI chegou a apenas 5km da cidade fronteiriça. A distância é a menor alcançada pelo grupo desde o início da ofensiva contra a região, habitada pela terceira maior comunidade curda da Síria. Pela primeira vez, os extremistas teriam lançado foguetes contra o centro de Kobane, deixando ao menos um morto e dezenas de feridos.

A movimentação dos jihadistas ocorreu em meio à ofensiva militar aérea liderada pelos Estados Unidos. Na madrugada de ontem, a campanha conduzida por Washington, com o apoio de uma coalizão integrada por 40 países, atingiu posições do EI nas cidades sírias de Raqa e Aleppo. Os bombardeios atingiram um centro de controle do grupo e um depósito de cereais. Relatos coletados pelo OSDH indicaram que civis teriam sido mortos na ação. O Pentágono, porém, afirmou que não havia evidência de baixas civis.

Segundo o general Jeff Harrigian, da equipe de operações da Força Aérea americana, os bombardeios têm por objetivo desarticular os centros de comando do EI, bem como ;a infraestrutura e a liberdade de movimento;. De acordo com a agência de notícias Reuters, mais de 290 bombardeios já foram realizados pelos EUA e seus aliados na Síria e no Iraque. Até ontem, as operações já haviam custado cerca de US$ 1 bilhão. A organização independente Centro de Avaliações Estratégicas e Orçamentárias estima que a ofensiva atinja um custo de US$ 3,8 bilhões por ano, caso as operações em solo e no ar se mantenham nos patamares atuais. Uma intensificação das ações, porém, poderia elevar as despesas para US$ 22 bilhões.

Posição delicada
O avanço dos extremistas no norte da Síria provocou o deslocamento de mais de 160 mil moradores da região de Kobane para a Turquia. Autoridades turcas observavam com cautela a aproximação dos jihadistas em direção à fronteira, até o presidente Recep Tayyip Erdogan anunciar a mudança de posição do país, na semana passada. Caso obtenha autorização para intervir em solo estrangeiro contra o EI, Ancara passará a integrar a coalizão internacional de combate ao EI.

Gunther Rudzit, especialista em defesa e coordenador do curso de relações internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco, avalia que a crise na região é delicada para o governo turco. ;Os turcos não são árabes, e há um impasse entre esses dois grupos étnicos;, lembra. ;Não me surpreenderia se a participação de Ancara se voltasse mais para o controle de fronteira do que para uma incursão mais profunda.; Além do risco de abrir um confronto direto com os jihadistas, Ancara calcula os efeitos potenciais da crise sobre o conflito que trava há décadas com grupos armados curdos no leste de seu território. Rudzit acredita que a inflexão de Erdogan responde à pressão da Europa e dos EUA, aliados da Turquia na Otan.

O especialista não descarta uma cooperação extraoficial entre Ancara e as forças curdas na Síria, que contam com o apoio do Partido dos Trabalhados do Curdistão (PKK, atuante na Turquia), para derrotar o EI. A mesma disposição, no entanto, não é verificada na Síria. O chanceler do país, Walid Moualem, afirmou diante da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, que o regime de Bashar Al-Assad não abrirá nenhum tipo de negociação com rebeldes. ;Não podemos iniciar qualquer solução política enquanto o terrorismo seguir descontrolado na Síria;, justificou. Moualem desqualificou os insurgentes considerados ;moderados;, que recebem apoio do Ocidente para combater tanto o EI quanto o governo, e afastou as esperanças de uma aproximação que pudesse colocar fim à guerra civil.



Com Erdogan,
menos liberdade


Um relatório da Human Rights Watch (HRW) aponta um ;preocupante retrocesso; no respeito às liberdades na Turquia. A deterioração dos direitos humanos foi observada nos últimos nove meses, período que abrange a gestão de Recep Tayyip Erdogan, ex-primeiro-ministro e atual presidente, e do premiê Ahmet Davutoglu. O HRW aponta a multiplicação de projetos de lei destinados a reforçar o controle de Ancara sobre o sistema judicial, as redes sociais e a imprensa. O governo também é acusado de impor restrições ao comportamento social e de ampliar os poderes dos serviços secretos. A organização ainda cita a dura repressão a manifestantes e a prisão de pelo menos 5,5 mil opositores de Erdogan.




Análise da notícia

Olhos no
desenlace

; Silvio Queiroz


A entrada da Turquia reforça a coalizão contra o Estado Islâmico, no campo político-diplomático, mas coloca questões de fundo para o cenário que se desenha para o futuro da região. Como os demais atores do conflito, o governo de Ancara tem interesses próprios em jogo, para além da rejeição aos extremistas e das motivações humanitárias. No caso, assegurar desde já uma posição que permita, adiante, interferir em qualquer eventual rearranjo territorial.

No início da guerra civil síria, há três anos, a liderança turca tinha como preocupação central o influxo de refugiados ; em especial, os da minoria étnica curda, presentes com peso no leste da Turquia. Foi o papel crescente das forças autônomas do Curdistão iraquiano que determinou a virada na posição de Ancara. Diante do risco de assistir a um processo irreversível de independência, Ancara decidiu integrar-se desde logo ao conflito, para ao menos ter voz naquilo que lhe diz respeito.



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