Lula, sexta-feira, 19/5/1978

Lula, sexta-feira, 19/5/1978

ALMIR PAZZIANOTTO PINTO, Advogado, foi ministro do Trabalho e presidente do TST
postado em 17/12/2015 00:00

Sexta-feira, 19/5/1978. Jornal da Tarde: ;Justiça do Trabalho decide: a greve é ilegal. Cerca de 25 mil trabalhadores estão parados, e outros 20 mil esperam as decisões de hoje;. A preocupante notícia ; estávamos sob o regime militar ; vinha estampada na página 12 do Jornal da Tarde. Ilustrada por fotografias de circunspectos juízes do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, e da numerosa assistência, a reportagem relatava o julgamento mais esperado daqueles dias: o TRT decidiria o destino da primeira greve deflagrada contra o arrocho salarial, após 1964.
A poderosa indústria automobilística do ABC encontrava-se imobilizada por determinação do Sindicato dos Metalúrgicos, comandado por jovem e quase desconhecido dirigente, Luís Inácio da Silva, pernambucano de Garanhuns. Desafiavam-se a Fiesp, o Dops, os militares, e velhos pelegos viciados em conchavos com os empresários e o Ministério do Trabalho. A decisão foi arrasadora. ;Dos 16 juízes que constituíram o tribunal, apenas o juiz classista Marcelino Marques votou a favor da legalidade do movimento;, dizia a reportagem.

Presente à sessão, o jornalista Marco Antonio Rocha, em box que recebeu o título ;Respeito senhores: isto é democracia;, escreveu: ;Vamos iniciar este comentário tentando retificar uma intimidade equivocada. Chamaremos o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo de senhor Luís Inácio da Silva. Esta não é apenas uma formalidade sintática; é fruto do respeito de que este cidadão se torna credor;.

A fragorosa derrota resultou no ponto de partida da carreira política do metalúrgico que se tornaria conhecido como Lula, ;o cara;, na opinião de Barack Obama, presidente da maior democracia do mundo. A trajetória de Lula não cabe dentro de homeopático artigo. Quem desejar conhecê-la deve consultar o vol. III do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro Pós-1930 (págs. 3.330/3.336). O verbete descreve, de maneira equilibrada, a ascensão do fundador do Partido dos Trabalhadores, da Central Única dos Trabalhadores, do líder que muitos compararam a Getúlio Vargas no plano das conquistas sociais. Poderia ser considerado, segundo as palavras de Marco Antonio Rocha, ;a única liderança política surgida no Brasil, após a revolução (de 1964);.

Derrotado por Franco Montoro em 1982, deputado constituinte em 1986, batido por Fernando Collor em 1989, por Fernando Henrique em 1994 e 1998, Lula ressurge do ostracismo em São Bernardo, em 2002, para impor severa derrota ao senador José Serra, reelegendo-se em 2006, quando suplantou Geraldo Alckmin. Para eliminar dúvidas acerca da liderança popular, elege a improvável Dilma Rousseff em 2010, e a reconduz à presidência em 2014.

Aqui se deu a temível vitória de Pirro. Acossados por intermináveis denúncias de corrupção, Lula, Dilma e o PT, em 2015, viram escorrer pelo ralo a imagem de partido acima de suspeitas, guardião da moralidade pública. As primeiras fissuras surgiram com os assassinatos, aparentemente mal solucionados, dos prefeitos Toninho do PT, em 2001, e Celso Daniel, em 2002. Em 2005, o escândalo dos Correios. Um ano depois o mensalão;logo em seguida, a Lava-Jato, e a Zelotes. Em poucos meses, ministros, deputados e dirigentes do partido, da intimidade de Lula, viram-se processados e condenados a longas penas de reclusão. Com eles, foram recolhidos empresários e diretores da Petrobras. Nesse instante, as acusações se concentram em familiares do ex-presidente e, nas últimas semanas, Delcídio Amaral, líder no Senado, foi preso por tramar a fuga de um dos réus.

Já há algum tempo, fundadores do PT, companheiros de Lula desde 1980, deixam o partido para vir a público revelar decepções. Partiu do jornalista, escritor e participante da luta armada Flávio Tavares essa dolorosa acusação: ;Nosso gesto foi generoso. Nada queríamos para nós próprios. Nem o poder. Não nos escondemos debaixo da cama e, só por isso, já valeu a pena. Muitos não sobreviveram, e é terrível isso. Mas, pelo menos, não sofreram vendo essa mixórdia sórdida do PT que, em nome da revolução social, assimilou o pior da direita populista e demagógica, com a tradição corrupta do ademarismo e do malufismo (O Estado, 6/11/2005). De líder popular aclamado, ao opróbrio a distância, às vezes, se faz pequena. Logo, muita cautela é pouca, para não escorregar.




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