Madrugada de terror

Madrugada de terror

Além de dois detentos, um agente penitenciário morreu durante motim no Centro de Prisão Provisória de Luziânia

DEBORAH FORTUNA Especial para o Correio WALDER GALVÃO*
postado em 12/09/2017 00:00
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Uma tentativa de fuga deixou três pessoas mortas no Centro de Prisão Provisória (CPP), em Luziânia. Um agente penitenciário levou um tiro na artéria femoral da perna direita e não resistiu ao ferimento. As outras vítimas, dois detentos, morreram carbonizadas pelos próprios internos. A rebelião começou por volta das 23h20 de domingo e terminou às 8h20 de ontem, após negociações entre as forças de segurança e a Ordem dos Advogados do Brasil em Goiás (OAB-GO). Logo no início da confusão, familiares de presos chegaram ao complexo para obter informações dos parentes, no entanto, a espera durou mais de 12 horas. No dia 20 do mês passado, o Correio começou uma série de reportagens sobre a violência no Entorno. O especial ;Cinturão do Crime no DF; abordou a insegurança de Luziânia na primeira matéria publicada.


A revolta ocorreu em dois pontos. Dentro do presídio, os detentos roubaram duas espingardas, quatro revólveres e fizeram os agentes de reféns. Do lado de fora, os familiares ficaram nervosos com a falta de informação e chegaram a invadir a área isolada do perímetro. Eles reclamavam de que estavam lá desde a madrugada sem saber o estado de saúde dos parentes. Em um momento, todos deram as mãos e rezaram a oração do Pai Nosso. Mesmo horas depois que os detentos Silvio Jesus Silva, 39 anos, e William Rosa da Silva, 29, foram identificados como as vítimas, as pessoas continuaram esperando na área externa.


O agente penitenciário Valdison Cardoso de Oliveira também morreu. A mulher dele está no quinto mês de uma gravidez de alto risco. Ele foi rendido após atender a um falso pedido de ajuda. ;Eles começaram a gritar por socorro. Disseram que tinha um detento passando mal;, relatou o superintendente penitenciário de Goiás, coronel Newton Castilho. O que teria motivado a rebelião seria uma tentativa de fuga por parte dos detentos. Entretanto, há duas versões sobre os assassinatos. Para Castilho, os presos queriam matar o colega de cela Silvio, que respondia pelo crime de ato libidinoso contra uma adolescente de 14 anos. ;Houve a tentativa de tomada da cadeia com fim de ceifarem a vida de detentos que têm envolvimento com estupro. Foi uma situação de vingança por parte dos próprios presos;, disse.


O delegado de Formosa, Maurício Passerini, no entanto, disse que Silvio teria revelado aos agentes o plano de fuga e sofreu retaliação. ;Tinha um buraco (feito para a fuga) no teto de uma das alas, em cima de um beliche. Eles estavam disfarçando, mas os agentes conseguiram identificar o buraco e fechá-lo;, contou.
A família de Silvio soube da morte pela televisão. A mãe a e irmã dele acompanharam a movimentação do lado de fora. Abalada, a filha mais velha, Armis Jesus Silva, 47, contou que foi um choque receber a notícia. Antes de ser preso, Silvio era morador de rua. Ele tinha sete irmãos e três filhos. ;Eu lamento pela família dos outros também. Do outro rapaz, do agente, mas nós chegamos aqui e fomos expulsos. Ninguém nos atendeu, e estamos sem saber o que fazer;, reclamou Armis. ;Eu sei o que a minha mãe está sentindo. É horrível. Eu perdi um filho no dia do aniversário dele, também assassinado. E o culpado ainda não foi preso;, lamenta a irmã.

Sistema precário

O Sindicato dos Servidores do Sistema de Execução Penal do Estado de Goiás (Sinsep-GO) alerta para a recomendação do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), de ter um agente prisional para cada cinco presos. Durante a rebelião do CPP de Luziânia, apenas dois agentes estavam responsáveis por 348 detentos. A capacidade do presídio é de 148. Há 28 celas no local. ;O Estado é insuficiente na questão de gerir o sistema prisional goiano. Não temos equipamentos eletrônicos, tudo é feito manualmente. O nosso efetivo é baixo e não há concursos;, lamenta Maxuel Miranda das Neves, presidente do sindicato.


A Organização Internacional do Trabalho (OIT) considera a profissão de agente penitenciário como uma das mais perigosas do mundo. ;É extremamente estressante, perigosa e não reconhecida. Falta valorização do servidor e estrutura de trabalho;, lamenta Maxuel. De acordo com ele, os agentes de Goiás trabalham em escala de 24h por 72h. O presidente do Sinsep ainda ressalta que a remuneração não é suficiente para o trabalho exercido.

Memória

2017
26 de agosto ; Uma rebelião no Presídio de Jussara, no noroeste de Goiás, terminou com quatro presos mortos e nove foragidos. Uma das vítimas foi decapitada e duas carbonizadas.

2016
31 de janeiro ; Em Luziânia, oito detentos fugiram do Centro de Inserção Social (CIS). Eles fizeram um buraco na parede de uma das celas e serraram as grades. Os prisioneiros fugiram durante a noite, no entanto, os agentes prisionais só notaram a ausência deles pela manhã, quando realizavam a troca de turno.
4 de março ; Um grupo de pessoas invadiu a Casa de Prisão Provisória (CPP) de Formosa e libertou 26 bandidos. A ação ocorreu durante a noite, e a maioria dos fugitivos tinham passagem por homicídio. Os criminosos invadiram o prédio pelos fundos, arrebentaram os cadeados e resgataram os detentos, que escalaram e fugiram.

2014
28 de janeiro ; Um detento foi assassinado dentro da Unidade Prisional de Planaltina de Goiás. José Valdglê Fernandes Gonçalves, 43 anos, foi espancado e morto com uma faca artesanal durante o banho de sol.

2011
23 de junho ; Há 6 seis anos, uma rebelião na Agência Prisional de Alexânia (GO) deixou três detentos e dois agentes penitenciários feridos. Os cinco foram baleados durante a confusão. Um dos funcionários do local perdeu o rim e teve o pulmão perfurado. Os outros quatro feridos foram atingidos nas pernas. Na ocasião, oito detentos fugiram da penitenciária.

* Estagiário sob supervisão de Guilherme Goulart

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação