Argentina condena padres

Argentina condena padres

Justiça de Mendoza sentencia a mais de 40 anos de prisão dois sacerdotes por abusarem sexualmente de crianças surdo-mudas de instituto educacional. Mãe de vítima celebrou veredicto e admitiu ao Correio que pensou em vingança

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 26/11/2019 00:00
 (foto: Andres Larrovere/AFP)
(foto: Andres Larrovere/AFP)


A Justiça argentina condenou ontem os padres Horacio Corbacho, 59 anos, e Nicola Corradi, 83, a respectivamente 45 e 42 anos de prisão por abusarem sexualmente de crianças surdo-mudas do Instituto Próvolo, em Mendoza, 1.000km a oeste de Buenos Aires. O jardineiro do centro de ensino Armando Gómez também cumprirá pena de 18 anos por 4 casos de abusos. O chamado Caso Próvolo abalou a Igreja Católica. O argentino Corbacho foi considerado culpado por 16 casos de abuso sexual e corrupção agravados, enquanto o italiano Corradi, de cinco casos de abusos sexuais simples e de corrupção agravados.

Assim que os juízes Carlos Díaz, Maurício Juan e Aníbal Crivelli proferiram a sentença, os três réus permaneceram em silêncio, enquanto familiares e vítimas se abraçavam, em meio às lágrimas. Além da reclusão em regime fechado, a Justiça ordenou ao Ministério da Saúde de Mendoza que preste assistência psicológica às vítimas e amplie a difusão do ensino da linguagem de sinais nas escolas. Mais 14 réus, divididos em dois casos, ainda não foram julgados.

;Eu não acredito mais na Igreja e menos nos padres que arruinaram a vida da minha filha;, desabafou ao Correio Gloria Gomez, mãe de Agustina Mercau, a argentina transgênero de 26 anos que buscou eternizar a dor do passado em forma de tatuagem de monja maldita no braço esquerdo. ;Minha filha entrou em um poço depressivo e muitas vezes quis tirar a própria vida;, lamentou. Agustina ainda era Néstor Gastón e tinha apenas 10 anos quando foi alvo das sevícias de Corradi. Os abusos ocorreram durante cinco anos. ;Eu confiei tanto nos padres. Acreditava que faziam um bem ao meu filho, mas me equivoquei. Apenas quis dar um futuro melhor para ele. Cheguei a pensar em fazer justiça com minhas próprias mãos;, comentou. Segundo Gloria, foi muito difícil para Agustina guardar segredo até 2016, quando decidiu denunciar o sacerdote. Hoje, a mãe se diz orgulhosa pela coragem e pela fortaleza da filha. ;Por fim, se fez justiça para ela e todos os sobreviventes de Próvolo.;



Reparação

Liliana Rodríguez, 66 anos, atendeu a várias vítimas de abuso sexual, na condição de psicóloga da Rede de Sobreviventes de Abuso Eclesiástico da Argentina. ;Por nossa rede, passaram mais de 100 pessoas, temos 66 padres denunciados e cinco condenados. Como não vivo em Mendoza, não participei do caso Próvolo. ;O veredicto é reparatório para os sobreviventes, pois lhes devolve a dignidade. A Justiça acreditou em seus relatos e os condenou. Além disso, a Corte dispõe de obrigações para o Estado, como tratamento psicológico gratuito, grupos de reflexão, ensino da linguagem de sinais e a criação de postos de trabalho para as vítimas. Nesse sentido, a sentença foi completa;, afirmou ao Correio. ;É poder encerrar, simbolicamente, uma etapa.; De acordo com a especialista, sobreviventes de pedofilia sofrem sequelas múltiplas, tanto físicas (transtornos corporais), quanto psicológicas, como pesadelos, fobias, ataques de pânico e dependência de drogas. Alguns acabam por tirar a própria vida.

Morador de Córdoba, o médico psiquiatra Pablo Huck, 40, passou por dois ciclos de tratamento psiquiátrico com ansiolíticos e antidepressivos para tratar o trauma decorrente dos abusos sexuais que sofreu entre 13 e 15 anos. ;Não faço parte do caso Próvolo, mas recebi o veredicto com grande alegria. Foi importante para remarcar a magnitude da perversão dos delitos. Os padres violaram menores indefesos, que não podiam se expressar;, disse à reportagem. Pablo foi vítima do padre Marcelino Moya, no Instituto Imaculada, em Villaguay (província de Entre Ríos). ;Como todo o perverso, ele era muito sociável e sedutor com as pessoas. Foi meu professor de catequese e eu era coroinha. Tudo ocorreu dentro da igreja, nos aposentos do padre. Ele inclusive foi à minha casa depois que meu avô morreu e se aproveitou disso.;

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