Encontre seu equilíbrio

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Pressão pela produtividade, mesmo diante das incertezas trazidas pela pandemia, esconde angústias e contribui para o surgimento de distúrbios emocionais

Silvana Sousa* Manuela Ferraz*
postado em 24/05/2020 00:00
Seja otimista, tenha um home office produtivo, faça exercícios, cuide da alimentação, aprenda um novo idioma... As orientações sobre como lidar com o isolamento social se iluminam como um letreiro impositivo em meio às ruas da internet, as únicas que se podem ser frequentadas em tempos de pandemia.

O problema é que, embora o objetivo seja ajudar, o excesso de conselhos e orientações vira uma faca de dois gumes. Enquanto alguns conseguem filtrar e aplicar apenas aquilo que lhe é possível, outros acabam pressionados e paralisados pela enxurrada de informação sobre como devem se comportar e encarar a nova realidade.

O psiquiatra Luan Diego Marques analisa que, no início do isolamento as pessoas passaram a pensar: ;Tenho mais tempo;. Na verdade, houve apenas um deslocamento das obrigações sociais para dentro de casa. ;Essa mudança de modelo acabou confundindo esse período com férias, onde as pessoas tendem a estabelecer metas, projetos e se cobrarem por resultados, tudo isso mascarando o sentimento de angústia que permeia todos nós;, diz.

Debatida entre especialista sob o termo ;positividade tóxica;, o fenômeno se baseia em valores de meritocracia e poderes pessoais ilimitados e, de acordo como a psicóloga Érika Marakaba, é processo macro e social. ;Há a expectativa que continuemos no mesmo grau de positividade e produção como se nada tivesse acontecido, sem saber do futuro, do amanhã, da segurança. Porém, com a perda de vários marcadores de rotina, a pressão por tirar algo da pandemia aumenta a autocobrança e autoculpabilização.

Apesar de se acentuar nos últimos meses, ele não surgiu com a pandemia e tem origem na estrutura social. A doutora em educação e mestre em sociologia Ana Bárbara da Silva Nascimento explica que, ao redor do mundo, as sociedades são regidas pelo trabalho, fato que explica a pressão em ser produtivo. ;O trabalho não é não apenas um meio de sobrevivência. É realização pessoal e, principalmente, definição de valor do indivíduo. O homem é o que ele produzir. Logo, como não se perder em um mundo onde esse parâmetro social se reformula tão rápido?;, questiona.





Seis perguntas para Érika Marakaba, psicóloga

O que é positividade tóxica?
É um conceito ainda em construção e que fala dessa pressão social para que a gente esteja positivo, otimista e motivado o tempo inteiro, com uma positividade inacabada. Acho importante ressaltar que isso não quer dizer que toda positividade é tóxica ou que a luta, em si, para se manter motivado, seja tóxica. São apenas os casos em que há uma expectativa para que sempre esteja tão bem a ponto de lhe deixar mal. É a autocobrança por positividade excessiva.

Acha que, de tanto se falar em ser produtivo durante o isolamento, há uma pressão para que se produza o tempo todo? Isso poderia ser uma espécie de produtividade tóxica?
A positividade tóxica tem uma pressão por produtividade dentro dela, porque, quando você está bem motivado, nem que sua motivação seja apenas mostrar no Instagram que está levando uma vida produtiva e feliz, há a pressão para ser produtivo.

Como ela atua em nossa realidade, principalmente em momentos delicados como esse de isolamento social?
Em tempos de quarentena fica ainda mais tóxica porque há uma expectativa para que a gente continue com o mesmo grau de positividade e produção, como se nada não tivesse acontecido. Sem saber do futuro, da segurança, você perde vários marcadores da sua rotina, mas permanece com o peso de ter que continuar sendo produtivo e tirar algo da pandemia. Isso aumenta a autocobrança e a autoculpabilização.

Quais são os perigos dessa positividade tóxica e da pressão para produtividade à mente das pessoas?
Você acredita que os outros estão muito bem, como se anunciam nas telas, e isso aumenta o sofrimento psíquico que pode levar até a síndrome do impostor, de que eu não sou feliz como me coloco nas mídias e não sou feliz como todo mundo é. A sensação é fracasso, comparação e competitividade por quem tá levando a vida mais significativa ; porque não basta ser produtivo, tem que ter status, dinheiro e tem que estar feliz.

É importante aceitar que existem os momentos de tristeza, cansaço, estresse causados pelo isolamento e acolhê-los?
Sim. O acolhimento de todos os sentimentos é importante para termos intimidade com nossas emoções e manejo. Não é à toa que as pessoas têm adoecido tanto. A depressão é recorrente, muitas vezes, por causa dessa falta de manejo. Se a todo sinal de tristeza eu jogo para debaixo do tapete e finjo que não estou vendo, ela voltará com mais força. Aí você vai perceber que não sabe como lidar com ela, porque só interagia com os estímulos da alegria e da positividade.

Quais orientações você daria para quem deseja se livrar dessas pressões?
A pessoa pode observar que tipo de perfis tem dado qual tipo de sentimento para ela. Estamos falando de permitir os sentimentos e agora falamos em parar de seguir? Parece contraditório.
Diria que mais importante é o autoconhecimento, que dá a ela a sabedoria para distinguir o que faz bem e o que faz mal, e o que lhe acrescenta. Muito da positividade tóxica e da aceleração social que vivemos vem do excesso. Então, tentar reduzir os estímulos do concreto e das mídias já ajuda a focar em se perceber melhor.






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