Serviços de saúde e ambiência

Aristides José Vieira Carvalho Médico, coordenador da Residência de Medicina de Família e Comunidade do HC-UFMG e da Residência Multiprofissional de Saúde da Família/Atenção Básica do HOB-SMSA/PBH, professor do curso de medicina da Faculdade da Saúde e Ec
postado em 20/02/2014 00:00
Em 2003, foi instituída no Brasil a Política Nacional de Humanização da Saúde, que incluiu entre os seus dispositivos a construção coletiva de ambientes mais saudáveis para receber o cidadão. Para expressar a qualidade do ambiente dos serviços de saúde, o Ministério da Saúde escolheu o termo ambiência, palavra presente na língua portuguesa, embora pouco utilizada no dia a dia, que passou a ser utilizada para significar ;o tratamento dado ao espaço físico; dos serviços de saúde, ;entendido como espaço social, profissional e de relações interpessoais que deve proporcionar atenção acolhedora, resolutiva e humana;.

Sem dúvida avançamos nesses últimos 11 anos em relação à ambiência. Podemos listar vários serviços de saúde com ambientes acolhedores, agradáveis e saudáveis. Em muitas cidades mineiras e de todo o Brasil, várias unidades de saúde adotaram e investiram no conceito de ambiência para a arquitetura e relações interpessoais. Esses exemplos positivos, certamente pouco conhecidos, deveriam ser divulgados. Com a divulgação, além da informação e atualização das pessoas, poderíamos ter o que se chama motivação pelo exemplo, pelo que é possível fazer e é feito por tantos. Seria um reconhecimento aos anônimos que promovem a beleza da saúde.

Infelizmente, é de admitir o que é lembrado com frequência pela mídia: serviços distantes da ambiência sonhada. Exemplos nessa área são muitos. Na perspectiva da recepção dos usuários, um dos exemplos provavelmente compartilhados por muitos de nós é o da espera em serviços de saúde particular ou privados, quando nos sentimos tratados com indiferença pelos profissionais administrativos e/ou técnicos, e esperamos ; paciente ou impacientemente ; que um olhar nos localize e se dirija a nós. Essa situação é frequente e lamentável. Justificativas possíveis para ela seriam a sobrecarga dos profissionais, o cansaço, a insensibilidade, o medo de ser abordado e ter que dar atenção, a correria, o número restrito e insuficiente de profissionais, entre outros.

Preocupa-me a presença de serviços de saúde pesados e tristes, que priorizaram a tecnologia, os procedimentos e os medicamentos em detrimento da ambiência. Não há vida em suas paredes, não há sorriso nas salas de espera, não há relações interpessoais leves e agradáveis.

A mídia apresenta com frequência serviços em que o tratamento ao ser humano deixa muito a desejar. Esses serviços que estão distantes do conceito de ambiência precisam acordar. Devem reunir esforços dos seus gestores, profissionais e usuários no sentido de buscar a transformação. Precisam ser tocados pelos exemplos de tantos que, no anonimato, desenvolvem trabalhos exemplares. As experiências exitosas poderiam ser luz e norte para muitos desses serviços. Muitas vezes pequenas mudanças significam grandes transformações e ótimos resultados. A proatividade e a criatividade também devem ser consideradas.

Se por um lado avançamos em tecnologia e em profissionais mais qualificados, por outro ainda convivemos com situações em que as pessoas em serviços de Urgência e Centros de Terapia Intensiva ficam confinadas ao leito com aparelhos e acessos venosos, circundadas por paredes tristes, sem apelo visual e sonoro, com relações interpessoais frágeis e superficiais.

Os serviços públicos e privados têm muito o que aprender um com o outro. Conseguiram nos últimos anos acumular uma gama enorme de saberes e de experiências que pode ser utilizada pelo serviço privado. De forma semelhante, muitos serviços privados são exemplo de excelência e de ambiência e podem compartilhar os seus avanços com os serviços públicos. A mídia poderia contribuir nesse sentido..

É preciso acreditar na importância de investir na ambiência. De forma semelhante aos profissionais que lidam com design de ambientes, os políticos, os gestores e os profissionais do setor deveriam olhar o ambiente dos serviços de saúde, namorá-los, e deixar nascer desse romance leveza, dignidade, alegria e acolhimento. Isso é possível. É lógico que traz como desafios: capacitação e sensibilização de profissionais, adequação do número de profissionais às demandas do serviço, qualificação do gerenciamento, recursos financeiros e vontade política.

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