Não queremos Copa

"Lembram-se dos Jogos Pan-Americanos Rio%u20192007? Até hoje a conta não fechou e ninguém diz nada, investiga e se preocupa com o desvio de bilhões de reais"

Jaeci Carvalho
postado em 20/02/2014 00:00
Uma pesquisa nacional revela: 82% dos brasileiros não queriam a Copa do Mundo por entender que um país de Terceiro Mundo com graves problemas deveria priorizar segurança, saúde e educação, justamente nesta ordem. Vamos gastar R$ 40 bilhões, que não temos, para agradar à multimilionária Fifa com uma competição que só deveria ser realizada em países ricos. Digo isso com toda a tranquilidade de quem cobriu cinco Mundiais, quatro deles em nações com muito dinheiro: Estados Unidos, França, Japão/Coreia do Sul e Alemanha. E o último na paupérrima África do Sul, que ainda assim tem bem mais conforto para a população do que o Brasil, haja vista as estradas maravilhosas.

Quando foi a Zurique em 2007 para assistir na Fifa à cerimônia do anúncio do nome do nosso país, o ex-presidente Lula não pensou em fazer um plebiscito para saber se o povo queria mesmo o evento. Pois é, na Suécia, um dos países mais ricos, civilizados e sem violência do mundo, o povo disse Não à Olimpíada. A população entendeu que há outras prioridades, mesmo em nação das mais desenvolvidas.

Não sou contra o Brasil promover competições, mas sei que boa parte dos nossos políticos é corrupta. Lembram-se dos Jogos Pan-Americanos Rio;2007? Até hoje a conta não fechou e ninguém diz nada, investiga e se preocupa com o desvio de bilhões de reais. Devemos estar nadando em dinheiro, principalmente com esse risco de apagão, de falta de água e outras coisas. Acabaram com o país e ninguém toma conhecimento. Pagamos um dos impostos mais caros do mundo e a contrapartida é zero. A violência está nas alturas, a saúde lá embaixo e a educação bem longe do que pretendemos, com ensino de baixa qualidade, professores apanhando de alunos e desmotivados. Sou de uma época em que fazíamos concurso para estudar em escolas públicas, como o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Bons tempos, em que os mestres eram valorizados e, acima de tudo, respeitados e admirados pelos alunos e pelo Estado.

Não queremos Copa. Enfiaram-na em nós goela abaixo, e a conta está chegando com falta de policiamento nas ruas, gente morrendo nas Unidades de Pronto Atendimento, alunos desertando de escolas. Que pena que o Brasil trate tão mal a sua gente. Não tenho dúvidas de que para maquiar esse estado de pobreza vão pôr as Forças Armadas na rua, como em outras ocasiões, e a violência vai cair. Aí, o estrangeiro vai se sentir seguro e dizer lá fora que aqui é diferente do que veem na TV.

Somente em BH, no último fim de semana foram mais de 20 assassinatos. Vocês se lembram de que na Copa das Confederações a segurança foi total? Um amigo, que mora no Belvedere, disse que jamais viu tanta polícia no bairro. Mas sabem por quê? Havia delegações num hotel da região, e a proteção era para elas, não para os habitantes, que pagam um dos impostos mais caros da cidade. Na Copa não será diferente.

E, para fechar essa conta da vergonha, o Brasil não ganhará a Copa do Mundo. Alemanha, Argentina e Espanha estão em condições bem acima. Vamos gastar toda essa fortuna para bater palmas para os estrangeiros. O governo promete medidas drásticas contra as manifestações, que virão com força no Mundial. Por que não usar de austeridade agora para acabar com a violência no país? Por que não mudar as leis penais, punindo menores, seja de que idade for? Nos Estados Unidos tanto faz um garoto de 5 anos ou um cidadão de 70 cometer um crime. O garoto tem a cara mostrada na TV, vai para um reformatório e aos 21 anos é julgado novamente, podendo até ser mandado para o corredor da morte. Aqui um marmanjo de 17 anos e 11 meses é apreendido, enviado para unidades que o ;aperfeiçoam; no crime e aos 21 anos vai para as ruas com a ferocidade de quem quer matar.

É isso que queremos no Brasil? Não queremos Copa, não queremos delegações estrangeiras, não queremos blá- blá-blá... Queremos segurança, saúde e educação. Acho que, para um povo que paga trilhões e trilhões de reais por ano, isso não é pedir muito.

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