Um outro olhar

Um outro olhar

A experiência compartilhada de ver, comentar e debater filmes ganha novamente adeptos nos cineclubes brasilienses

Luana Brasil Especial para o Correio
postado em 07/05/2014 00:00



A experiência de ver um filme pode ser mais rica do que aquela que se encerra com o letreiro de ;fim;. E os cinéfilos sabem disso. Mesmo com a facilidade de acesso individual às obras cinematográficas, proporcionada pela internet, o interesse no debate sobre os filmes atrai novamente segmentos do público aos cineclubes.

;É difícil ter acesso aos filmes de arte em Brasília;, afirma o aposentado Roberto Garcia, frequentador do Cinema da Casa da Cultura América Latina (CineCal). Apaixonado pelo cinema há mais de 30 anos, ele comenta que na cidade, fora das mostras e dos cineclubes, não há espaço para a programação cult. ;Sinto falta de um circuito alternativo de cinema latino, europeu ou mesmo brasileiro. Venho ao CineCal há mais de cinco anos e aqui consigo assistir às raridades que não estão nas salas comerciais ; explica. Brasília conta, atualmente, com 40 cineclubes em funcionamento, sendo 28 deles filiados ao Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros.

Desde a criação do Chaplin Club, primeiro cineclube no Brasil, aberto em 1928, no Rio de Janeiro, a atividade vem se desenvolvendo e suprindo as lacunas da insuficiência de salas de cinema no país. Há quase 1.400 espalhados pelo Brasil, ao passo que apenas 2% dos 5,5 mil municípios brasileiros têm salas oficiais de exibição, conforme dados do Ministério da Cultura (MinC). Além de ser uma alternativa aos espectadores, o cineclubismo também foi um movimento formador, influente no histórico de importantes cineastas do século 20, como o baiano Glauber Rocha e o francês Jean Luc-Godard.

E é esse aspecto de núcleo de formação de uma cultura cinematográfica que a professora e coordenadora do Cineclube Integracine, Viviane Cassalans, busca para os estudantes. ;Criamos o cineclube com a responsabilidade de levar uma nova linguagem audiovisual aos alunos do Centro Educacional EIT, em Taguatinga. Atuamos em uma região muito carente de espaços culturais, por isso queremos mostrar aos alunos a diferença que há entre a experiência fílmica sustentada pelo debate e o cinema de shopping;, explica.

Formação cultural
Os alunos nunca saem vazios das sessões e dos debates, que ajudam a fixar os conteúdos de sala de aula, além de influenciar na qualidade das redações e do pensamento dos jovens, segundo a professora. O Integracine foi criado em 2008, com apoio do MinC e do Ministério da Educação (MEC) e colabora com a formação cineclubista de adolescentes da região de Taguatinga e de Ceilândia.

Norteado pela distinção entre cinema de arte versus cinema comercial, e focado em promover o debate sobre questões políticas e psicológicas que estão no imaginário brasiliense, o CineCal oferece programação alternativa de cinema de forma gratuita.

Neste mês, ocorre uma mostra de nove filmes que destacam a atuação e a direção de José Wilker, falecido recentemente. ;Ele teve uma longa e sólida trajetória no cinema, no teatro e na tevê. Esse trabalho deve ser reverenciado e preservado, principalmente num país de memória tão curta como o Brasil;, aposta Tom Maranhão, curador e coordenador do CineCal. A exibição da Mostra José Wilker acontecerá às quartas e sextas-feiras, às 15h30, no auditório da Casa.

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